A psicanálise, em sua essência freudiana e lacaniana, nos permite decifrar os enigmas do desejo, do tabu e das relações familiares que, quando transgredidos, revelam as fissuras da estrutura psíquica.
A recente polêmica envolvendo a influenciadora Andressa Urach e seu filho Arthur Urach, de 20 anos, que gravaram e comercializaram conteúdo adulto explícito na plataforma Privacy (anunciado em 2 de janeiro de 2026), representa um caso paradigmático contemporâneo de violação do tabu do incesto, mas sob a lógica do espetáculo digital e do consentimento adulto.
Essa dinâmica pode ser comparada ao histórico drama romano entre o imperador Nero e sua mãe Agrippina, a Jovem, marcado por rumores de relação incestuosa, dominação materna e posterior matricídio.

O CASO CONTEMPORÂNEO: FUSÃO NARCÍSICA E O GRANDE OUTRO DIGITAL
Andressa Urach, conhecida por sua trajetória em reality shows, ex-Miss Bumbum e criadora de conteúdo adulto, anunciou a gravação como resposta a “pedidos recorrentes” de assinantes, justificando-a com argumentos de consentimento mútuo, maioridade e ausência de criminalização explícita do incesto entre adultos no Código Penal brasileiro.
A defesa jurídica, divulgada em 6 de janeiro, enfatiza que se trata de “dois adultos plenamente capazes”, diferenciando reprovação moral de ilegalidade penal. No entanto, áudios divulgados (como “Um dia eu mamei em você. Hoje você vai mamar em mim”) e prévias explícitas intensificaram o escândalo, levando a debates sobre limites éticos, possíveis violações de termos de plataformas e risco de banimento.
Civilização
Do ponto de vista psicanalítico, essa configuração evoca o *complexo de Jocasta* (inversão do Édipo clássico), onde a mãe não apenas permite, mas ativamente encena a sedução incestuosa. Freud, em Totem e Tabu (1913), descreve o incesto como desejo primordial que a civilização reprime para fundar a ordem simbólica. Aqui, o tabu é “atuado” e monetizado, sugerindo uma regressão à fase pré-edípica de fusão simbiótica mãe-filho. Andressa trata Arthur como extensão do seu self narcísico – um objeto para satisfazer demandas de atenção, validação e lucro –, ecoando o conceito lacaniano do filho como *objeto a*, causa do desejo materno.
Maníaca
A plataforma digital (Privacy) funciona como o *Grande Outro* lacaniano: a sociedade voyeurista que valida a transgressão, transformando o proibido em commodity. Essa exposição pública serve como defesa maníaca contra a angústia da castração: o ato incestuoso é negado como tal (“é só trabalho profissional”) e elevado a espetáculo rentável. Arthur, por sua vez, ao participar (e já atuando como cinegrafista dos conteúdos da mãe anteriormente), pode representar uma identificação com o desejo materno, evitando a separação edípica necessária para a subjetivação.
Mórbida – A reação social – repúdio massivo misturado a curiosidade mórbida – ilustra o retorno do reprimido: o tabu, mesmo quando “legal”, desperta horror porque toca o núcleo do desejo inconsciente coletivo.
O CASO HISTÓRICO: DOMINAÇÃO MATERNA E A REBELIÃO VIOLENTA
Nero (37-68 d.C.), influenciado pela mãe Agrippina (que manipulou sua ascensão ao trono), foi alvo de rumores antigos (Tácito, Suetônio) de relação incestuosa. Agrippina exercia controle absoluto, inclusive sexual, para manter o poder. Eventualmente, Nero, ressentido, ordenou seu assassinato em 59 d.C.
Destruição
Psicanaliticamente, trata-se do *complexo de Édipo clássico com inversão patológica*: desejo incestuoso pela mãe aliado a ódio (projetado na figura materna como autoridade devoradora). Melanie Klein veria Agrippina como o “peito mau” internalizado, levando Nero a uma posição esquizoparanóide, onde a destruição da mãe é necessária para integrar o self fragmentado. O matricídio não é só político, mas catarse psíquica – tentativa de resolver a ambivalência edípica –, que, no entanto, precipita a loucura posterior (incêndio de Roma, perseguições).
PARALELOS E DIFERENÇAS: DO MATRICÍDIO À MONETIZAÇÃO DO TABU
Ambos os casos revelam falhas na função paterna simbólica (o Nome-do-Pai lacaniano), que deveria impor limites ao desejo materno-filial:
– Complexo de Édipo/Jocasta – Nero: rebelião violenta contra a mãe dominadora; Urach: fusão consensual e pública, sem separação (regressão à simbiose).
– Narcisismo – Ambas as mães instrumentalizam o filho (poder político em Agrippina; validação midiática e financeira em Andressa).
– Contexto cultural – Roma imperial permitia excessos; sociedade digital contemporânea monetiza o proibido, adaptando o desejo reprimido a novas formas de espetáculo, mercantilização, refletindo a hipersexualização pós-moderna onde o privado vira capital.
CONCLUSÃO
Essa polêmica não é mero sensacionalismo: é sintoma de uma época em que os tabus fundamentais persistem, mas são reescritos pela lógica do consumo e da visibilidade.
A psicanálise nos alerta que, sem a simbolização adequada dos limites familiares, o desejo pode se manifestar em atos que, mesmo “consentidos”, revelam sofrimento psíquico profundo – tanto para os envolvidos quanto para a sociedade que os consome vorazmente.
Em vez de julgamento moral, convido à reflexão: o que esses casos dizem sobre nossa própria relação com o desejo e o proibido?
José Sidney Andrade dos Santos
Psicanalista
Para saber mais sobre Parafilias, leia o Livro do mesmo autor: “PARAFILIAS, IGREJAS E SOCIEDADE ATUAL”












