Por Jose Sidney Andrade Dos Santos, Filósofo, Sociólogo e Escritor
Em uma era onde a medicina se arvora como bastião da humanidade, proclamando juramentos hipocráticos de “não causar dano”, assistimos ao grotesco espetáculo de profissionais da saúde transformando-se em algozes. O caso das médicas Priscila Romão e Nágila Duran, acusadas de sequestrar, torturar e manter em cárcere privado uma cidadã boliviana em Guajará-Mirim, Rondônia, não é mero acidente isolado, mas um sintoma purulento da falência ética e formativa no sistema médico brasileiro. Aqui, a violência surge não como ferramenta de marginais, mas de quem deveria abster-se dela por dever profissional e moral – revelando uma hipocrisia que corrói as entranhas da sociedade.
Os fatos, chocantes em sua brutalidade, pintam um quadro de barbárie medieval camuflada sob diplomas médicos. A vítima, uma mulher boliviana, foi atraída ao Brasil sob o pretexto falso de receber um presente para o filho, apenas para ser levada a um local isolado na zona rural, onde sofreu agressões físicas, teve os cabelos cortados à força, foi dopada e submetida a terror psicológico intenso – tudo na presença de sua criança. As médicas, foragidas na Bolívia após a deflagração da Operação Bisturi pela Polícia Federal em 14 de janeiro de 2026, foram presas ao retornar ao país em 18 de janeiro – uma em Porto Velho e a outra por entrega voluntária. Penas potenciais superam dez anos, mas o dano à confiança pública é irreparável. Qual o motivo? As investigações apontam para uma punição vingativa, talvez ligada a desavenças pessoais ou profissionais, mas o que importa é o método: violência como meio de “obter resultados” e impor “justiça” particular, praticada por aquelas que juram curar, não ferir.
Como sociólogo, vejo nesse episódio a perversão weberiana da racionalidade instrumental: a medicina, que deveria ser um campo de empatia e ciência, torna-se arena para sadismo. E aí entra a formação médica em voga – ou melhor, em xeque. Nossas universidades despejam profissionais tecnicamente competentes, mas emocionalmente atrofiados, obcecados por status e poder. O currículo médico brasileiro, inchado de anatomia e farmacologia, ignora a saúde mental dos próprios alunos e futuros doutores. Estresse, burnout e distúrbios psicológicos são epidemias silenciosas entre médicos, mas quem os avalia? Quem garante que um estetoscópio não caia em mãos instáveis? Essas médicas, com seus títulos, usaram o conhecimento para dopar e torturar – uma ironia ácida que expõe como a educação médica falha em cultivar humanidade, priorizando o ego sobre a ética.
Filosoficamente, evoca Foucault: o poder médico como forma de controle corporal, agora pervertido em dominação violenta. Médicos que torturam não são anomalias; são produtos de um sistema que romantiza a autoridade branca do jaleco, sem escrutínio psíquico rigoroso. Saúde mental deve ser imperativo para o exercício de qualquer profissão, especialmente aquelas que lidam com vidas vulneráveis. Imaginem um piloto com transtornos pilotando um avião, ou um juiz psicopata sentenciando – por que toleramos médicos desequilibrados com bisturis? Exigir avaliações psicológicas periódicas não é luxo, mas necessidade; sem isso, a profissão médica continua um risco, um vetor de violência disfarçada de cuidado.
Esse caso revela a podridão oligárquica brasileira, onde elites profissionais se acham acima da lei, usando violência para punir os “inferiores” – aqui, uma imigrante boliviana, símbolo da desigualdade fronteiriça. É escandaloso: quem cura, mata; quem salva, destrói. Como sociedade, precisamos reformar a formação médica, integrando psicologia e ética como pilares, e punir exemplarmente esses “doutores da dor”. Caso contrário, o juramento hipocrático não passa de farsa, e a violência institucionalizada continuará a devorar os fracos.













