Por Jose Sidney Andrade dos Santos
Em meio ao caos econômico e social que assola o Irã desde o final de 2025, protestos massivos eclodiram em todas as 31 províncias do país, demandando o fim do regime islâmico e a transição para um governo que respeite os direitos humanos e a dignidade do povo. O que começou com greves de lojistas no Grande Bazar de Teerã rapidamente se transformou em uma revolta nacional contra a má gestão estatal, escassez de água, cortes de energia e degradação ambiental. No entanto, a resposta do regime dos aiatolás foi brutal: uma repressão sem precedentes, culminando em massacres nos dias 8 e 9 de janeiro de 2026, com forças de segurança – incluindo o Corpo de Guardiães da Revolução Islâmica (IRGC), Basij e policiais à paisana – posicionadas em ruas e telhados, disparando contra manifestantes desarmados. O número de mortos ultrapassou milhares: estimativas oficiais admitem 3.117, o Líder Supremo Ali Khamenei reconheceu “milhares”, enquanto o Relator Especial da ONU, Mai Sato, relatou pelo menos 5.000, com fontes médicas sugerindo até 20.000 vítimas. Um blecaute nacional de internet foi imposto para ocultar os crimes, acompanhado de prisões em massa, torturas, desaparecimentos forçados e execuções sumárias.
Esse episódio representa o mais sangrento da história moderna do Irã, superando até as repressões de 2019, 2021 e 2022 – esta última desencadeada pela morte de Jina Mahsa Amini em custódia policial. A impunidade por violações passadas apenas incentivou a escalada da violência. Mas onde estão as vozes que tanto clamam por justiça global? A omissão de organismos internacionais, defensores de direitos humanos, a ONU e, especialmente, os partidos políticos de esquerda, revela uma seletividade hipócrita que compromete a credibilidade da luta pelos direitos humanos.
A Silêncio da ONU e Organismos Internacionais: Condenações Tímidas e Ação Insuficiente
A Organização das Nações Unidas (ONU), que se autodenomina guardiã dos direitos humanos, demonstrou uma resposta morna diante da carnificina. Embora o Conselho de Direitos Humanos da ONU tenha estendido a Missão de Apuração de Fatos sobre o Irã e condenado o “mais mortal crackdown contra o povo iraniano desde a Revolução de 1979”, e ativistas iranianos tenham exposto torturas e massacres no Conselho de Segurança, a maioria dos “especialistas em direitos humanos” da ONU permaneceu em silêncio sobre a repressão brutal do regime islâmico. Um relatório da UN Watch revela que esses experts optam por um engajamento seletivo e politizado, ignorando massacres quando não se alinham a narrativas convenientes. Uma coalizão de 30 ONGs exigiu ação emergencial da ONU para parar os assassinatos em massa, questionando: “Se a ONU não age decisivamente quando um regime massacra milhares de seus próprios cidadãos por direitos básicos, sua credibilidade está em jogo”.
O regime iraniano rejeitou resoluções da ONU condenando as mortes nos protestos, comparando o número de vítimas ao genocídio de Srebrenica – uma provocação que destaca a audácia da impunidade. A Anistia Internacional tem sido uma voz ativa, documentando violações e advocando por referências ao Tribunal Penal Internacional (TPI), mas o silêncio geral de outros organismos internacionais perpetua a inação. Por que não há sessões de emergência no Conselho de Segurança? Por que editores alinhados ao regime tentam revisar páginas da Wikipedia para apagar menções aos massacres? Essa omissão não é mera negligência; é cumplicidade passiva com um regime opressor.
Direitos Humanos: Seletividade e Abandono
Grupos de direitos humanos, que mobilizam recursos para causas como Palestina ou outros conflitos, frequentemente abandonam os iranianos massacrados nas ruas. A mídia ocidental minimiza os protestos como “questões de custo de vida”, ignorando a demanda por liberdade. Refugiados iranianos relatam torturas, abusos sexuais e execuções, mas onde está a urgência? Ativistas questionam: “Perguntamos à ONU, à mídia, celebridades, campi: por que nenhuma urgência quando manifestantes iranianos inocentes são massacrados?” A seletividade é evidente: “Sem judeus, sem notícia” – o silêncio do mundo enquanto o Irã assassina seu povo.
Partidos Políticos de Esquerda: Hipocrisia e Alianças Inconvenientes
Mais chocante é o silêncio dos partidos de esquerda, que se posicionam como defensores dos oprimidos, mas calam diante das atrocidades do regime dos aiatolás. Por que a multidão do “Free Palestine” fica muda sobre o Irã? A esquerda progressista deve parar de fazer desculpas para os tiranos de Teerã, especialmente quando o regime suprime mulheres, minorias e dissidentes. Não há marchas nas ruas, protestos em campi ou postagens de celebridades. Mas se os EUA ou Israel intervirem para parar o banho de sangue, a esquerda gritará “imperialismo”. Essa omissão revela uma ideologia seletiva, onde abusos são ignorados se o opressor se opõe ao “Ocidente”.
Conclusão: Um Chamado à Ação Verdadeira
O massacre no Irã não é apenas uma tragédia local; é um teste à humanidade global. A omissão de organismos internacionais, da ONU, de grupos de direitos humanos e dos partidos de esquerda compromete a essência da justiça universal. Precisamos de ações concretas: investigações independentes, sanções efetivas e apoio aos manifestantes. Que essa carnificina desperte consciências – antes que o silêncio se torne cumplicidade eterna. O povo iraniano merece mais do que condolências vazias; merece liberdade.
Jose Sidney Andrade dos Santos é escritor e autor de obras como “Responsabilidade Civil no Ambiente Religioso”, focado em ética, direitos e instituições.












