A recente caminhada do deputado federal Nicolas Ferreira, saindo de Belo Horizonte com destino a Brasília, ultrapassa o caráter de um gesto pessoal ou de uma ação meramente religiosa. Trata-se de um ato político simbólico, carregado de significados, que precisa ser lido dentro do atual contexto institucional brasileiro.
Independentemente da concordância ou discordância ideológica, o gesto chama atenção por ocorrer em um momento de forte desgaste da confiança popular nas instituições centrais da República.
O que a caminhada indica?
Historicamente, marchas, caminhadas e peregrinações sempre foram instrumentos de denúncia, resistência e apelo moral. No campo político, esses atos costumam surgir quando os canais institucionais tradicionais — debates no parlamento, comissões, audiências públicas — parecem insuficientes para produzir resposta concreta às demandas sociais.
A caminhada de Nicolas Ferreira pode ser interpretada como:
• Um ato de protesto simbólico;
• Um alerta às instituições;
• Uma tentativa de reconectar a política ao sentimento popular;
• Ou ainda, uma forma de romper o silêncio institucional percebido por parte da sociedade.
Não se trata apenas do trajeto físico, mas da mensagem que ele carrega: a ideia de que algo está fora do lugar no funcionamento do Estado brasileiro.
A quem interessa esse gesto?
Em primeiro lugar, interessa a um segmento da população que se sente:
• Politicamente órfão;
• Desrepresentado pelo Congresso;
• Desconfiado das decisões do Supremo Tribunal Federal;
• Cético em relação ao combate à corrupção;
• Frustrado com a ausência de freios e contrapesos efetivos entre os Poderes.
Também interessa ao próprio parlamentar, pois consolida uma imagem de ativismo político performático, característica da nova política digital, em que símbolos e narrativas mobilizam mais do que discursos técnicos.
Por outro lado, o gesto incomoda setores que preferem a estabilidade institucional baseada no silêncio, na acomodação e na normalização de decisões controversas.
Motivação: despertar políticos e o povo?
A caminhada parece dialogar com um sentimento difuso na sociedade: o de que há uma leniência institucional generalizada.
• Decisões do STF são vistas por parte da população como excessivamente expansivas, com impacto direto sobre competências do Legislativo.
• O Congresso Nacional, por sua vez, é frequentemente acusado de omissão, corporativismo e incapacidade de reagir institucionalmente.
• O Poder Executivo, envolto em denúncias recorrentes de corrupção e aparelhamento, contribui para o sentimento de descrédito.
Nesse cenário, a caminhada funciona como um chamado simbólico, quase pedagógico: uma tentativa de dizer que a política não pode se resumir a gabinetes climatizados e acordos de bastidores.
Atrocidades institucionais ou crise de legitimidade?
Quando se fala em “atrocidades”, o termo não precisa ser entendido apenas no sentido penal ou criminal. Há também atrocidades institucionais, como:
• Prisões questionadas por juristas;
• Restrições à liberdade de expressão;
• Decisões judiciais com forte impacto político;
• Ausência de debate legislativo proporcional à gravidade dos temas;
• Normalização do estado de exceção retórico.
A caminhada, nesse sentido, não aponta apenas para eventos passados ocorridos em Brasília, mas para uma crise continuada de legitimidade, onde o cidadão comum sente que sua voz não encontra eco.
Conclusão
A caminhada de Nicolas Ferreira não muda leis, não revoga decisões judiciais e não reforma instituições. Mas cumpre um papel relevante: provocar debate, gerar desconforto e expor fissuras no edifício democrático brasileiro.
Se será lembrada como um gesto vazio ou como um marco simbólico dependerá menos do deputado e mais da resposta das instituições. O silêncio, neste momento, pode ser interpretado como confirmação das críticas. O diálogo, ao contrário, pode ser o primeiro passo para restaurar a confiança pública.
Em democracias saudáveis, atos simbólicos não são temidos — são compreendidos, debatidos e enfrentados com argumentos, não com censura ou indiferença.













