O governo federal impede que beneficiários de programas sociais apostem em plataformas de apostas. Antônio*, de 22 anos, relata ter perdido cerca de R$ 53 mil devido ao vício em apostas online. Para se livrar do jogo compulsivo, ele adotou uma estratégia que envolve apoio médico, familiar e mudanças comportamentais.
Estratégias de recuperação
Ao perceber o vício, Antônio contou com a ajuda do pai, que passou a administrar seu dinheiro. “Eu percebia que estava perdendo dinheiro, mas não conseguia parar”, conta. Inicialmente, ele tentou usar crédito de cartões, mas bloqueou todos os cartões e contas bancárias para evitar novas apostas. Atualmente, seu pai o ajuda com uma ajuda financeira mensal, entregue por meio de sua namorada. Após três semanas sem apostar, Antônio assumiu o controle do valor.
Além do controle financeiro, Antônio busca relatos de outras pessoas que enfrentaram o mesmo problema no YouTube e segue tratamento psicológico e psiquiátrico. “Tomo um remédio para impulsividade e outro para controle de humor”, explica. Ele reconhece que o acesso ao tratamento foi facilitado por sua condição socioeconômica, o que nem sempre é possível para todos os brasileiros.
Crescimento do problema no Brasil
O vício em apostas tem se tornado um problema crescente no Brasil desde a regulamentação das plataformas online em 2018. Um estudo da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), publicado em abril deste ano, revelou que cerca de 28 milhões de brasileiros de 14 anos ou mais apostaram no ano anterior. Deste total, 10,9 milhões (38,6%) apresentavam características de jogo de risco ou problemático, e 1,4 milhão (5%) apresentavam um padrão compatível com o transtorno do jogo.
Mecanismos viciantes
De acordo com o psiquiatra Rodrigo Machado, do Programa de Transtornos do Impulso do Hospital das Clínicas da FMUSP, o cérebro pode se tornar dependente de comportamentos, assim como de substâncias químicas. A facilidade de acesso aos cassinos online, a qualquer hora e lugar, e os mecanismos de apostas cada vez mais sedutores contribuem para o aumento da dependência.
As apostas “in-play”, feitas durante o andamento de jogos, e a variedade de opções de apostas (em cartões amarelos, próximos gols, etc.) criam um ciclo rápido de apostas e resultados, estimulando a compulsividade. Além disso, as plataformas utilizam mecanismos que distorcem a percepção de ganhos e perdas, incentivando o jogador a continuar apostando.
Impacto financeiro e emocional
Rafael Santos, de 42 anos, relata ter perdido mais de R$ 150 mil com apostas, incluindo R$ 80 mil em dívidas. Ele chegou a considerar o suicídio devido ao vício. Compartilhando seu drama no YouTube, busca ajudar outras pessoas a superar o problema.
O Brasil tem se destacado como um dos maiores mercados para o Gamban, um software de bloqueio de sites de apostas, com cerca de 6 mil novos downloads por mês. No entanto, o custo do software pode ser uma barreira para muitos viciados, que já enfrentam dificuldades financeiras.
O que fazer para combater o vício?
Especialistas recomendam procurar ajuda de psicólogos ou psiquiatras, participar de grupos de apoio como Jogadores Anônimos, utilizar aplicativos para bloquear sites de apostas, solicitar a autoexclusão nas plataformas, buscar apoio familiar e financeiro, monitorar dívidas e, se necessário, renegociá-las.
Além das medidas individuais, são necessárias políticas públicas para proteger a população, como a proibição do marketing de influência, a criação de campanhas educativas e a proibição de mecanismos de apostas danosos. A criação de serviços públicos de suporte e um sistema centralizado de bloqueio de plataformas também são importantes.
*Nome fictício para preservar a identidade do entrevistado.
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