Foto: Divulgação/UFMA
O cultivo de uvas, tradicionalmente associado a regiões de clima temperado ou semiárido como o Vale do São Francisco, vem ganhando espaço na Amazônia Legal. A iniciativa, considerada um pioneirismo devido às restrições ambientais, ao clima equatorial e à falta de tradição na região, aponta para um potencial da fruticultura local.
No Maranhão, o Instituto Federal do Maranhão (IFMA) Campus Caxias, em uma área de transição entre o Cerrado e a Floresta Amazônica, lidera um projeto de destaque. O estudo ‘Cultivo de uvas no Maranhão: IFMA Caxias desenvolve protocolo de produção de mudas’ busca viabilizar a viticultura comercial e impulsionar a fruticultura regional.
O trabalho envolve a produção de mudas em laboratório, casa de vegetação e campo experimental, com diferentes combinações de cultivares e porta-enxertos, além do manejo fitossanitário para controlar pragas como o cancro bacteriano da videira. A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) ressalta que o cultivo na Amazônia Legal exige adaptações, como a seleção de variedades resistentes e protocolos de manejo específicos.
Desafios e adaptações regionais
De acordo com o estudo do IFMA, a alta umidade, as chuvas intensas e os solos pobres em fósforo e matéria orgânica são alguns dos fatores que dificultam o cultivo de uvas na Amazônia Legal. A produção orgânica, sem o uso de agrotóxicos, representa um desafio ainda maior, exigindo conhecimento técnico, infraestrutura e apoio institucional – recursos muitas vezes escassos na região.
A Instrução Normativa nº 21, que estabelece requisitos técnicos para a produção integrada de uvas, oferece suporte para práticas mais sustentáveis, mas sua implementação na Amazônia Legal ainda está em fase inicial. O alto custo das mudas e a dificuldade de aquisição em grandes quantidades também são obstáculos a serem superados. O IFMA trabalha no desenvolvimento de um catálogo com informações sobre os principais agentes patogênicos e orientações de manejo adaptadas às condições locais.
Mapati: a uva-da-Amazônia
Em paralelo à introdução de espécies tradicionais como a Vitis vinifera, pesquisadores têm valorizado espécies nativas com características semelhantes às uvas. O mapati, conhecido como “uva-da-Amazônia”, desperta interesse científico e comercial. Sua polpa é suculenta, sabor adocicado e rica em minerais como cálcio, fósforo e potássio.
Estudos da Embrapa e do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) indicam que o mapati pode ser cultivado em áreas com solo bem drenado e adubação orgânica, características que se adaptam ao clima tropical úmido da região. Pesquisas exploram seu uso na produção de vinhos, geleias, chás e cosméticos, ampliando o potencial de aproveitamento da espécie nativa.
Em 2022, pesquisadores do Amazonas e de São Paulo desenvolveram um vinho tinto a partir do mapati, demonstrando a viabilidade tecnológica e destacando o potencial da biodiversidade amazônica para a diversificação da fruticultura regional. A pesquisa, com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Amazonas (Fapeam), utilizou frutos coletados em Manaus, São Gabriel da Cachoeira e Tabatinga.
Segundo pesquisadores, o estudo de plantas alimentícias não convencionais (PANC) frutíferas da Amazônia pode gerar impactos ambientais e econômicos significativos, contribuindo para a conservação da natureza e o desenvolvimento de novos alimentos.
Viticultura adaptada à Amazônia
A produção de uvas no Brasil concentra-se no Rio Grande do Sul e no Vale do São Francisco, regiões com condições climáticas mais favoráveis e infraestrutura consolidada. Na Amazônia Legal, o cultivo exige inovações no manejo e adaptação das variedades. No Maranhão, o IFMA Caxias utiliza cultivares como BRS Vitória e BRS Núbia, combinadas a porta-enxertos desenvolvidos no Instituto Agronômico de Campinas, monitorando estresses hídricos e nutricionais em solos de baixa fertilidade. O projeto também visa elaborar um calendário de podas baseado no Zoneamento Agrícola de Risco Climático, orientando os agricultores sobre os períodos mais adequados para cada etapa do cultivo.










