“Um retrato da elite política e judiciária do Brasil quase se refestelando no bem bom com as meninas do job enquanto seus ternos e togas bem passados ficavam à espreita para serem usados no achaque dos brasileiros”
Por José Sidney Andrade dos Santos
Ah, o Brasil! Terra de contrastes onde o pobre vai preso por furtar um litro de leite e vira capa de jornal, mas a elite organiza surubão de luxo em mansão de R$ 300 milhões e o povo ainda arca com o rombo de R$ 41 bilhões via Fundo Garantidor de Crédito. Bem-vindos ao Surubão do Vorcaro — ou “Cine Trancoso”, como os participantes mais cultos preferiam chamar —, o maior símbolo de 2026 daquilo que realmente une os Três Poderes: a putaria institucionalizada, regada a champanhe Dom Pérignon, prostitutas importadas da Escandinávia e um fedor de propina que nem o mar de Trancoso consegue lavar.
Daniel Vorcaro, o ex-banqueiro ostentação que transformou o Banco Master numa lavanderia de fraudes e numa agência de encontros VIP, bancava as festanças na casa de veraneio em Trancoso (ou mansão alugada, dependendo do dia). Relatos da dona da casa? “Vorcaro encheu minha casa de putas! Ele, amigos e muitas putas”. Cada figurão podia ter no mínimo quatro mulheres — norueguesas, suecas, holandesas, suíças —, enquanto projetavam “filminhos” eróticos e negociavam favores que depois viravam decisões judiciais, emendas parlamentares ou arquivamentos milagrosos. Ministros do STF, togas do STJ, deputados, senadores, executivos do governo anterior, gente do mercado financeiro: todos lá, quase se refestelando no bem bom com as meninas do job. Porque nada lubrifica melhor uma sentença comprada do que uma orgia tailandesa patrocinada pelo amigo banqueiro.
E os ternos italianos sob medida e as togas impecáveis? Ficavam à espreita, sim. Pendurados nos cabides da Villa 21 ou do hotel de luxo no Rio, esperando o dia seguinte para serem vestidos no achaque oficial: votar em orçamentão secreto, soltar habeas corpus para corruptos de estimação, arquivar inquéritos que incomodam, aprovar leis que espremem o contribuinte até a última gota. Enquanto o povão suava sangue para pagar gasolina a preço de ouro, cesta básica nas alturas e saúde que não existe, a elite dançava pelada na areia de Trancoso — possivelmente gravada em vídeos “tóxicos” guardados no celular apreendido de Vorcaro, que a PF agora analisa como se fosse dinamite.
O revoltante? Isso é tradição brasileira desde sempre. O surubão do Vorcaro é só o remake 2026 do mensalão, do petrolão, da rachadinha — agora com trilha sonora de gemidos, flashes de celular e câmeras escondidas que podem fazer tremer Brasília inteira. E o pior: ninguém cai de verdade. Vorcaro foi preso, solto com tornozeleira, delatações pipocam (ou não), o MP pede investigação no TCU para identificar quem estava nas festas, a PF acha “provas”, parlamentares tremem com medo de vídeos vazarem, YouTube explode com análises, Instagram ferve com reels… e no final? Silêncio nos grandes jornais, arquivamento discreto, delação que some no ar. Porque quem vai investigar quem? O ministro que jantou no Fasano bancado por ele? O juiz que aceitou o convite “cultural”? O deputado que dividiu a suíte?
Vorcaro agora treme (ou finge tremer). Tem vídeos comprometedores — orgias com poderosos, dizem uns; Big Brother da elite, gritam outros. Pode delatar todo mundo. E aí? Prendem de novo? Claro que não. Oferecem proteção, delação premiada, redução de pena para casa de veraneio (se sobrar alguma depois do rombo). Os figurões? Continuam de toga, de terno, de microfone, discursando sobre ética, moralidade e combate à corrupção, enquanto o FGC sangra e o povão paga a conta.
Enquanto isso, o brasileiro comum segue achacado: imposto sobre imposto, inflação no talo, saúde no chão, educação no esgoto. Porque a elite precisa manter o padrão: terno bem passado de dia, cueca no chão de noite.
O Surubão do Vorcaro não é escândalo isolado. É o retrato nu e cru da família brasileira do poder: pais ausentes, filhos mimados e uma fatura eterna que o povo paga.
Acorda, Brasil. Ou melhor: continua dormindo. Enquanto ronca, eles se refestelam no bem bom — e riem da nossa cara.
E as meninas do job? Pelo menos essas cobram na cara dura e entregam o serviço. Diferente dos nossos “representantes”.
José Sidney Andrade dos Santos
Filosofo, Sociólogo, Escritor, Psicanalista e mais recentemente cafetão da elite política brasileira com mais de 200 milhões de cafetões.









