Em Manaus, terreiros e templos de religiões afro-brasileiras, espaços importantes para a cultura e a fé da população negra, estão em áreas consideradas de alto risco geológico, segundo um mapeamento inédito do Serviço Geológico do Brasil (CPRM). A análise, divulgada no contexto da Semana da Consciência Negra, chama a atenção para a vulnerabilidade desses locais e de suas comunidades.
O relatório da CPRM aponta que centenas de setores na capital amazonense apresentam risco alto (R3) ou muito alto (R4) para desastres como inundações, alagamentos, erosão, deslizamentos e enxurradas. Um levantamento complementar, feito pelo Atlas ODS Amazônia e o Instituto Ganga Zumba, cruzou os dados do mapeamento com a localização dos terreiros e templos.
A sobreposição dos mapas revelou que muitos desses locais de culto estão dentro ou muito próximos de áreas de risco, o que coloca em perigo não apenas a estrutura física dos templos, mas também a segurança e a preservação da cultura e da fé das comunidades que os frequentam. Segundo dados de 2025, Manaus tem 362 setores com risco alto e 76 com risco muito alto, impactando cerca de 112 mil pessoas.
Para o pesquisador Danilo Egle, do Atlas ODS Amazônia, o mapeamento é um alerta para a necessidade de políticas públicas que vão além da proteção das manifestações culturais visíveis. “O mapa mostra claramente os territórios sagrados e a proximidade de áreas de risco. É preciso agir, especialmente com os eventos climáticos cada vez mais graves”, afirma. Ele defende que a segurança e a permanência dos terreiros e templos devem ser consideradas parte do patrimônio imaterial e territorial negro.
Os terreiros são muito mais do que locais de culto; são centros comunitários, educacionais e de resistência cultural. Por isso, qualquer risco à sua infraestrutura ou interrupção de suas atividades tem um impacto significativo na vida das comunidades. A divulgação do mapeamento, no mês da Consciência Negra, reforça a importância de incluir a fé, a cultura e o sagrado nas políticas de prevenção de riscos, planejamento urbano e valorização do patrimônio.
A preservação desses espaços exige visibilidade, engajamento do poder público, da sociedade civil e das próprias comunidades de terreiro, para garantir que a história e a cultura afro-brasileira continuem vivas e protegidas em Manaus.











