A Tapyra’yawara é uma figura presente nas cosmologias de diversos povos originários da PanAmazônia há séculos. O nome, de origem Tupi, une “tapir” (anta) e “-iauara” (onça), criando uma criatura singular que personifica a força e o mistério da floresta.
A pesquisadora Karine Aguiar, da Academia Amazonense de Música, explica que a origem exata da lenda é incerta, mas ela é especialmente forte na região do Baixo e Médio Amazonas – abrangendo cidades como Maués, Parintins e Santarém – e no Rio Madeira. Também é contada pela comunidade indígena Sateré-Mawé.
As descrições da Tapyra’yawara variam, mas geralmente a retratam com corpo de anta, cabeça de onça e, em algumas versões, pés de pato ou patas de cavalo, refletindo sua natureza anfíbia. O ser é conhecido por emitir um som perturbador e por se mover em grupos.
Relatos de ribeirinhos de Maués mencionam um odor forte e inebriante associado à aparição da Tapyra’yawara, capaz de causar alucinações. A lenda serve como um alerta sobre o respeito à natureza e suas forças.
Hoje, a história é transmitida oralmente e através da literatura indígena, com um papel educativo importante no cuidado com o meio ambiente e na preservação da cultura local. Um exemplo é a “Dança da Tapyra’yawara”, manifestação junina da comunidade de Santa Maria do Maués-Açu.
A história e o folguedo
Na região de Santa Maria, a Tapyra’yawara é vista como protetora das florestas e das águas, punindo quem explora a natureza com ganância. A versão local inspirou o folguedo junino, uma festa popular que celebra a identidade cultural da região.
Durante o São João, artistas liderados por Mestre Daio apresentam a dança, que narra a lenda com música autoral e personagens como o caçador, a natureza e a própria Tapyra’yawara. A encenação enfatiza a importância da preservação do bioma amazônico e da harmonia entre os seres humanos e a natureza.
Para os Sateré-Mawé, a Tapyra’yawara é um dos seis espíritos que protegem a Mãe-Terra. A lenda, em todas as suas versões, reforça a mensagem de cuidado mútuo e a finitude dos recursos naturais.
“A história da Tapyra’yawara busca nos ensinar uma relação de cuidado mútuo entre seres humanos e não-humanos habitantes da Terra, além de nos alertar constantemente sobre a noção de finitude do que a natureza generosamente nos dá todos os dias para que possamos continuar existindo”, conclui Karine Aguiar.
Por Karla Ximenes, estagiária sob supervisão de Clarissa Bacellar












