Na fronteira da expansão da monocultura da soja na Amazônia, comunidades locais mantêm vivos os sistemas agrícolas tradicionais (SATs), que preservam a memória do passado, sustentam o meio ambiente e apontam caminhos para o futuro. A afirmação é da antropóloga Emília Pietrafesa de Godoi, da Unicamp.
“Esses sistemas desempenham um papel fundamental na produção das paisagens e na manutenção da sociobiodiversidade”, afirmou Godoi durante a Escola Interdisciplinar FAPESP 2025, onde apresentou sua pesquisa sobre os SATs na região do Baixo Tapajós, no Pará. A pesquisa, apoiada pela FAPESP, articula esses sistemas como patrimônio cultural e ambiental, atuando em comunidades como Jamaraquá e Maguari.
A abordagem da pesquisa é colaborativa, reconhecendo os moradores como pesquisadores locais. “Temos uma equipe multidisciplinar, mas sem a participação das populações locais, o trabalho seria impossível”, explicou Godoi. “Não consideramos os moradores meros informantes, mas coautores do conhecimento.”
A pesquisa destaca a complementaridade entre a “memória da terra” – revelada por vestígios arqueológicos – e a “memória na terra” – inscrita nos cultivos e roças manejadas por gerações. Os SATs também valorizam as micropaisagens domésticas, como hortas e pomares, frequentemente manejadas por mulheres, e a transmissão intergeracional do conhecimento.

A expansão da soja e o uso de agrotóxicos representam ameaças aos SATs e à saúde das comunidades. A pesquisadora está realizando análises laboratoriais para identificar a contaminação por glifosato em amostras de solo e mel. “É um exemplo da colaboração entre diferentes campos da ciência e regimes de conhecimento para enfrentar esses desafios”, concluiu Godoi.
Com informações do Portal Amazônia.










