Alter do Chão, um paraíso no coração do Pará, é mais do que paisagens deslumbrantes. É um território onde a cultura indígena borari se entrelaça com a vida da comunidade, criando um ambiente de encantamento. E, nessa atmosfera, a ‘Quinta do Mestre e da Sereia’ se destaca como um ato sagrado de contar histórias.
A experiência vai além de um simples evento cultural. É um mergulho em uma cosmovisão que valoriza a natureza e a conexão entre os seres vivos. A Quinta celebra o carimbó, ritmo paraense reconhecido como patrimônio cultural e artístico imaterial do estado, através da união de mestres da música e sereias – pessoas que, com suas saias rodadas e pés descalços, levantam a poeira e a energia do lugar.
Para quem observa, a dança do carimbó parece instintiva, mas é aprimorada pela prática. A Quinta do Mestre, no entanto, não se resume à técnica. É um convite para compartilhar a essência da terra, para se conectar com a percussão terrosa, a sonoridade envolvente e as canções que tocam o coração.
A cada quinta-feira, turistas e moradores se unem em uma festa que transcende o tempo. O corpo se move em harmonia com a música, criando um ritual de celebração da vida e da ancestralidade. É um momento em que a razão se silencia e o mistério se revela, lembrando que somos parte de algo maior.
Mais do que uma dança, o carimbó é uma reencenação do encontro entre os mestres da música e suas sereias, um diálogo entre o sagrado e o profano. A crença nos Botos, seres míticos da Amazônia, se manifesta na dança, criando uma atmosfera mágica e envolvente.
O cheiro da terra e dos banhos de cheiro que selam o encontro entre os participantes se misturam, criando uma atmosfera única e inesquecível. A Quinta do Mestre é um lembrete de que a religião, no sentido de reconexão com a terra, é desnecessária quando mantemos nossos laços com a natureza.
É um ritual que parece sustentar a alma de Alter do Chão, mantendo viva a encantaria e a conexão com as raízes indígenas. Uma história que se repete a cada quinta-feira, esperando para ser ouvida e vivida novamente.
Jan Santos, autor do texto, é mestre em Literatura e membro do Coletivo Visagem de Escritores e Ilustradores de Fantasia e Ficção Científica.












