Fungos microscópicos que vivem nos igarapés da Amazônia são essenciais para o equilíbrio do ecossistema, decompondo matéria orgânica e servindo de alimento para insetos e peixes. No entanto, um novo estudo alerta que a combinação de microplásticos e mudanças climáticas pode colocar em risco a reprodução desses organismos, com consequências para toda a cadeia alimentar.
A pesquisa, publicada na revista científica Science of the Total Environment, foi conduzida por cientistas da Universidade Federal do Pará (UFPA), em parceria com o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), a Universidade Federal da Bahia (UFBA) e a Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). Os pesquisadores simularam cenários climáticos previstos para a região até 2100, expondo fungos responsáveis pela decomposição de folhas a diferentes níveis de microplásticos e variações de temperatura e gás carbônico.
“Observamos uma alteração na reprodução desses fungos”, explica a bióloga Viviane Caetano Firmino, da UFPA e principal autora do artigo. “O impacto foi ainda maior quando as concentrações de microplásticos e os cenários climáticos extremos atuaram em conjunto.”
Embora a riqueza total de espécies não tenha diminuído, a pesquisa identificou uma substituição de espécies. Fungos mais tolerantes ou competitivos passaram a dominar, enquanto outros, mais sensíveis, praticamente desapareceram. Além disso, a capacidade de decomposição da matéria orgânica foi afetada, o que pode comprometer a ciclagem de nutrientes, essencial para a vida nos rios e florestas.
“Os microplásticos já estão presentes nos igarapés amazônicos”, destaca o biólogo Leandro Juen, da UFPA, líder do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) de Síntese da Biodiversidade Amazônica (SinBiAm). “Com isso, alguns serviços ecossistêmicos essenciais podem ser perdidos, e essa é nossa maior preocupação.”
A preocupação dos pesquisadores se deve ao risco de que mudanças na base da cadeia alimentar afetem não apenas insetos e peixes, mas também a segurança alimentar de milhões de pessoas que dependem dos recursos da Amazônia. Os fungos desempenham um papel fundamental na tornam o material vegetal palatável para outros organismos, mantendo a saúde dos riachos amazônicos.
O estudo foi realizado em câmaras de simulação climática no Inpa, em Manaus, que reproduzem diferentes cenários previstos para a floresta. No cenário mais extremo, a temperatura da água pode aumentar em até 5,1 °C, e a concentração de dióxido de carbono (CO₂) pode ultrapassar 1.080 ppmv (partes por milhão por volume).
Os pesquisadores monitoraram a produção de esporos, a diversidade de espécies e a eficiência da decomposição da matéria orgânica para avaliar os impactos. A ecóloga espanhola Luz Boyero, da Universidade do País Basco, ressalta a importância de investigar múltiplos estressores combinados, pois seus efeitos podem ser complexos e se reforçar mutuamente.
O estudo reforça a necessidade de ações urgentes para reduzir a poluição por plástico e mitigar as mudanças climáticas na Amazônia, a fim de proteger a biodiversidade e garantir a sustentabilidade dos ecossistemas aquáticos da região.








