Pesquisadores da Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat) e da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) realizaram um estudo inédito sobre a primeira turma do curso de Enfermagem Intercultural Indígena, que começou em novembro de 2023 em Barra do Bugres.
A pesquisa analisou o perfil dos 50 estudantes indígenas, representantes de 42 etnias diferentes espalhadas pelos três principais biomas de Mato Grosso: Cerrado, Floresta Amazônica e Pantanal. Os dados revelam um panorama interessante sobre quem são esses futuros profissionais da saúde.
A maioria dos alunos (70%) é do sexo masculino, com uma faixa etária predominante entre 36 e 50 anos (44%). Uma parcela significativa (76%) já tinha alguma experiência na área da saúde indígena antes de entrar no curso, atuando principalmente como técnicos de enfermagem ou agentes comunitários.
O estudo também identificou as regiões com maior concentração de estudantes: Barra do Garças, Canarana, Querência (Nordeste) e Brasnorte, Sapezal (Noroeste). Juína, Aripuanã e Confresa se destacaram pelo maior número de matrículas.
Além de informações demográficas, os pesquisadores investigaram a representatividade de cada etnia no curso, considerando as vagas reservadas para os diferentes grupos indígenas no processo seletivo. A distribuição de vagas é definida pela Diretoria de Gestão de Educação Indígena e pela FAINDI, seguindo um modelo reconhecido nacionalmente há mais de 20 anos.
A análise por município mostrou um equilíbrio maior entre homens e mulheres no distrito de Vilhena, enquanto no Xingu e Xavante a diferença de gênero foi mais acentuada. Também foram observadas diferenças na participação feminina na área da saúde indígena.
De acordo com os pesquisadores, esse mapeamento é fundamental para aprimorar a oferta do curso e fortalecer o modelo intercultural, que combina conhecimentos tradicionais indígenas com a ciência moderna. “Esse curso representa uma conquista histórica, reafirmando o direito dos povos indígenas a uma educação diferenciada e de qualidade”, destacam os autores.
A pesquisa concluiu que a localização do campus universitário não foi o fator determinante para o número de matrículas, mas sim a quantidade de vagas destinadas a cada etnia e o tamanho da população indígena de cada grupo. Os maiores grupos étnicos apresentaram menor igualdade de gênero no preenchimento das vagas, indicando a persistência de padrões patriarcais em algumas comunidades.
Esses resultados podem servir de base para a criação de novas turmas de Enfermagem Intercultural em outras regiões do Brasil e até mesmo em outros países, especialmente no que diz respeito à consulta com as lideranças indígenas e gestores.
O estudo foi conduzido por Vagner Ferreira do Nascimento, Thalise Yuri Hattori, Érica Baggio e Ana Cláudia Pereira Terças Trettel (Unemat/Faindi), em parceria com Alisséia Guimarães Lemes e Lúbia Maieles Gomes Machado (UFMT). A Faculdade Indígena Intercultural (Faindi) da Unemat é referência nacional em educação indígena diferenciada, oferecendo cursos de graduação e pós-graduação que valorizam a cultura e os saberes dos povos originários.










