Às margens do Lago Puruzinho, no Amazonas, o pescador Raimundo Nonato dos Santos lamenta a drástica redução dos estoques de peixes que sustentam sua comunidade. Espécies como pirarucu (Arapaima gigas), tambaqui (Colossoma macropomum) e pirapitinga (Piaractus brachypomus) tornaram-se raras, com capturas ocasionais sendo consideradas uma surpresa.
Morador do Puruzinho há 53 anos, e líder comunitário conhecido como Leleca, Santos atribui a crise à construção da usina hidrelétrica de Santo Antônio, em Rondônia (2008), que ele descreve como o início da “ruína” para sua comunidade. Apesar de promovidas como energia limpa, as hidrelétricas têm gerado graves impactos ambientais e sociais, como a diminuição de peixes e o deslocamento de populações tradicionais.
A usina de Santo Antônio, a quinta maior do país, com um reservatório de mais de 54.600 hectares, alterou o fluxo natural do rio Madeira. Segundo Santos, “houve um descontrole muito grande e o impacto foi grande para nós: a diminuição de peixes, a água [leitosa] permanecendo muitos meses dentro da comunidade. Isso afetou muito a gente”. A escassez de peixes impactou não apenas a renda dos pescadores, mas também a dieta da comunidade, que antes consumia peixe diariamente.

Um estudo recente, conduzido em parceria com pescadores, revelou detalhes sobre as comunidades e espécies mais afetadas, utilizando o método Tecnologia Social de Baixo Custo Aplicada ao Monitoramento da Pesca Artesanal (TSBCAMPA). O trabalho analisou dados de capturas diárias e informações de antes da construção da barragem, mostrando que a instalação das usinas afetou negativamente a dinâmica de captura de diversas espécies, alterando os períodos e locais de pesca.
Os pescadores colaboraram fornecendo “informações valiosíssimas sobre a região”, segundo o pesquisador Igor Hister Lourenço. O estudo apontou para o desaparecimento da pesca em algumas comunidades e a redução de até 90% nos estoques de peixes em alguns locais. A pesquisa também destaca mudanças na dinâmica espaço-temporal da pesca, com espécies sendo capturadas em locais e épocas diferentes.

Comunidades em Rondônia, como Calama e a Terra Indígena Karipuna, também relatam a drástica redução dos estoques pesqueiros. Os pescadores buscam compensação pelos danos desde 2013, mas enfrentam dificuldades na Justiça. Os pesquisadores esperam que os dados coletados ajudem a fortalecer as reivindicações e apoiar políticas de conservação.
Com informações do Portal Amazônia.









