Algo está acontecendo na Amazônia: pássaros da floresta estão, aos poucos, mudando. Um estudo de longo prazo revela que pelo menos 77 espécies de aves vêm apresentando alterações em suas características físicas – corpos mais leves e asas ligeiramente maiores.
Os dados, coletados ao longo de mais de quatro décadas, indicam como o aquecimento global está impactando a vida selvagem até mesmo nos locais mais remotos do planeta. A pesquisa foi publicada no artigo ‘Variação fenotípica em uma ave do sub-bosque neotropical causada por mudanças ambientais em uma paisagem amazônica em processo de urbanização’.
Os pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), em Manaus, acompanham as aves em uma área de 43 quilômetros quadrados de floresta preservada desde 1979. O projeto, idealizado com a participação do ambientalista Thomas Lovejoy, tem sido fundamental para monitorar essas mudanças.
Para entender melhor o que está acontecendo, a equipe do Portal Amazônia conversou com o ornitólogo Mario Cohn-Haft, pesquisador do Inpa. Ele explicou que os resultados são autênticos e relevantes para a região.
“Este estudo foi feito aqui perto de Manaus e é muito importante para entendermos o que está acontecendo com as aves da nossa região. Temos um histórico de quase 50 anos que nos permite comparar o tamanho e a abundância desses animais ao longo do tempo”, disse Cohn-Haft.
Corpos mais leves e asas maiores: o que isso significa?
As mudanças são pequenas, mas significativas. Ao comparar indivíduos da mesma espécie capturados em diferentes momentos, os cientistas notaram uma redução no peso e, em algumas aves, o alongamento das asas.
“Não é algo que dá para perceber a olho nu, mas são diferenças reais”, explicou o pesquisador. “O peso diminuiu em média alguns pontos percentuais e, em certas espécies, as asas ficaram mais compridas.”
A explicação mais provável é que essas transformações são uma adaptação a um clima mais quente. Em ambientes frios, animais maiores retêm mais calor, enquanto em climas quentes, corpos menores dissipam melhor a temperatura.
Por que as asas estão crescendo?
O aumento do tamanho das asas sugere outro desafio: a necessidade de voar mais longe em busca de alimento e abrigo.
“Muitas espécies de pássaros da Amazônia são sedentárias, defendendo pequenos territórios e fazendo voos curtos”, explicou Cohn-Haft. “Se agora elas apresentam asas mais longas, é um sinal de que os recursos estão se tornando menos previsíveis, obrigando os animais a percorrer distâncias maiores.”
A variação no nível dos rios é um exemplo dessa instabilidade. O pesquisador cita o Rio Solimões, onde observou praias submersas com um nível de água nove metros acima do registrado no mesmo período do ano anterior.
“Esses contrastes, com secas extremas em um ano e cheias excepcionais no seguinte, refletem a volatilidade climática que também afeta os pássaros da floresta”, disse.
A estabilidade do microclima amazônico ameaçada
Para entender a importância dessas mudanças, é preciso conhecer a estabilidade do microclima amazônico. Dentro da floresta, a luz é reduzida, a umidade é alta e a temperatura permanece constante, independentemente do clima externo.
Esse ambiente estável favorece uma biodiversidade extraordinária, com espécies altamente especializadas. Há aves que se alimentam apenas em um tipo específico de folha, outras que procuram insetos em locais muito específicos. Essa diversidade só existe porque os recursos sempre estiveram disponíveis de forma estável.
Quando o clima se torna mais instável, com calor extremo, chuvas fora de época ou secas, esse equilíbrio é abalado. A abundância de insetos e frutos varia, forçando os animais a mudar seus hábitos e até mesmo sua forma física.
Um futuro incerto para as aves da Amazônia
As alterações observadas não são causadas por desmatamento ou poluição, mas por um fenômeno global. “O clima está mudando em todo lugar, inclusive no coração da floresta”, resumiu Cohn-Haft.
Ele ressaltou que as espécies típicas de áreas mais preservadas são as mais afetadas, tanto em número quanto em tamanho corporal. Isso reforça que os efeitos do aquecimento global não se restringem a áreas degradadas, mas alcançam até mesmo regiões aparentemente intocadas.
“Não estamos falando de decisões que os bichos tomam de um dia para o outro, mas de respostas evolutivas a condições que mudam muito rápido”, alertou Cohn-Haft. “Se até as aves dos lugares mais remotos estão encolhendo, é um sinal de que o impacto das mudanças climáticas chega a todos os cantos.”









