Pacaraima, cidade roraimense na fronteira com a Venezuela, tornou-se o primeiro contato do Brasil com os reflexos da crise política, econômica e humanitária no país vizinho. Desde 2015, mais de 1,1 milhão de venezuelanos entraram no Brasil por esta cidade, transformando sua rotina e dinâmica populacional.
Com cerca de 19 mil habitantes (Censo 2022), Pacaraima recebeu mais de 96 mil novos migrantes até 2025, incluindo mais de 11 mil apenas em outubro do ano passado, segundo o Observatório das Migrações Internacionais (OBMigra). Apesar do fluxo intenso, a prefeitura local afirma que a cidade mantém a tranquilidade, com o comércio funcionando normalmente e acompanhamento constante da situação pelas forças de segurança.

A crise venezuelana transformou o cotidiano de Pacaraima. Muitos migrantes chegam a pé, carregando seus pertences e buscando alimentação, trabalho e assistência médica. José González, de 48 anos, trabalhador autônomo de Maturín, Venezuela, exemplifica essa realidade: “O fato de estarmos aqui é porque a situação nos levou a esses extremos. Não é que a gente se sinta rejeitado pelo país, não. O que a gente sente é dor pelo nosso país. A Venezuela nos dói.”
Pacaraima já enfrentou momentos críticos, como os confrontos entre brasileiros e venezuelanos em 2018, que a colocaram em evidência nacional. A Operação Acolhida, iniciada naquele ano, estruturou a triagem, vacinação, regularização e interiorização dos migrantes, mas muitos ainda vivem fora das estruturas oficiais. A cidade se adaptou, crescendo proporcionalmente na última década e registrando uma alta adesão ao PIX (550%), impulsionada pelo fluxo migratório. O espanhol se tornou comum nas ruas, e venezuelanos trabalham em diversos setores.

Elizabeth Rincón, 39 anos, migrante que chegou a Pacaraima há menos de um mês, expressa a incerteza em relação ao futuro da Venezuela. “Não me sinto aliviada, porque não sabemos o que vai acontecer agora. Tiraram Maduro, e depois? A gente não sabe. Deixamos tudo nas mãos de Deus.” Apesar de aliviada ao saber que os recentes episódios de violência se concentraram em Caracas, ela demonstra a apreensão de quem deixou o país natal em busca de uma vida melhor.

Com informações do Portal Amazônia.








