Por José Sidney Andrade dos Santos
Infância em Risco, Prestígio Blindado, Omissão Estatal — e as Poucas Vozes que Enfrentam o Sistema
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1. Introdução – Epstein Não Foi um Desvio, Foi um Modelo
Jeffrey Epstein não foi uma exceção histórica. Foi a expressão extrema de um modelo de crime sustentado por poder, silêncio e proteção institucional. No Brasil, esse modelo se reproduz com eficiência: abusadores com capital simbólico elevado seguem blindados por estruturas que priorizam reputações, cargos e conveniências políticas.
Aqui, os “Epsteins” não vivem em ilhas privadas. Vivem entre nós.
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2. O Caso do Piloto da TAM – Prestígio Como Escudo
O caso do piloto da TAM, investigado por crimes sexuais contra menores, tornou-se emblemático por expor um padrão recorrente: quando o acusado possui prestígio profissional, a reação institucional é marcada por cautela excessiva, deslocamento do foco e silêncio estratégico.
A pergunta que dominou o debate não foi “como proteger as vítimas?”, mas *“como alguém com esse perfil poderia cometer tal crime?*”. Essa inversão não é casual. Ela é estrutural — e funciona como mecanismo de proteção ao agressor.
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3. O Perfil do Abusador Contemporâneo
O abusador moderno raramente corresponde ao estereótipo do marginal.
Ele costuma ser:
• respeitado socialmente;
• financeiramente estável;
• inserido em instituições de confiança;
• protegido por redes formais e informais de poder.
Esse perfil produz descrédito da denúncia e isolamento da vítima. No Brasil, isso se agrava pela cultura de relativização do abuso e pela resistência em enfrentar figuras “importantes”.
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4. A Cultura do Silêncio Como Política Não Escrita
O abuso sexual infantil só prospera onde há silêncio.
Silêncio da família.
Silêncio da instituição.
Silêncio da autoridade.
Esse silêncio não é neutro. *É político*. Ele mantém estruturas intactas e transforma crianças em dano colateral.
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5. O Fracasso do Estado – Análise Jurídica
Apesar do art. 227 da Constituição Federal e do Estatuto da Criança e do Adolescente estabelecerem a prioridade absoluta da infância, o que se observa é:
• sucateamento dos Conselhos Tutelares;
• investigações lentas;
• revitimização processual;
• seletividade na aplicação da lei quando o acusado possui capital político ou simbólico.
Essa omissão reiterada configura falha estrutural do Estado, passível de responsabilização jurídica e moral.
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6. Uma Exceção Incômoda:
A Atuação da Senadora Damares Alves – Em meio a um cenário marcado por omissão, retórica vazia e seletividade política, é necessário registrar que nem toda a classe política se manteve inerte.
A Senadora Damares Alves consolidou-se, ao longo de sua atuação pública, como uma das poucas vozes institucionais de enfrentamento direto à pedofilia e à violência sexual contra crianças e adolescentes no Brasil.
Sua atuação destacou-se por:
• colocar o tema da pedofilia no centro da agenda pública, sem eufemismos;
• defender o fortalecimento da rede de proteção à infância;
• enfrentar resistência política e midiática ao tratar o tema de forma frontal;
• romper com o silêncio institucional que historicamente protege abusadores.
Independentemente de divergências ideológicas, o combate à pedofilia não comporta relativizações partidárias. Quando a maioria silencia ou instrumentaliza o tema, quem enfrenta o problema com clareza passa a ser exceção — e exceções precisam ser reconhecidas.
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7. Proteção Não É Marketing
A infância não é pauta simbólica. Não se protege criança com campanhas, slogans ou discursos emocionais. Protege-se com:
• investigação célere;
•
• punição exemplar;
• proteção integral à vítima;
• enfrentamento de redes de poder;
• coragem política para contrariar interesses estabelecidos.
Sem isso, a “prioridade absoluta” permanece apenas no papel.
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8. Conclusão – O Silêncio Ainda Mata
Os “Jeffrey Epstein” brasileiros não existem por falta de leis. Eles existem porque o silêncio ainda é mais conveniente que a verdade, e porque enfrentar o abuso infantil exige coragem que poucos estão dispostos a exercer.
Enquanto o Brasil continuar premiando o silêncio e punindo quem denuncia, continuará cúmplice.
A infância não pode seguir pagando o preço da covardia institucional.
José Sidney Andrade dos Santos
Filosofo, Sociologo, Escritor, Psicaanalista













