Por José Sidney Andrade dos Santos
Há algo profundamente perturbador no ambiente político e midiático brasileiro contemporâneo. Não se trata apenas de divergência ideológica — algo legítimo e até saudável em uma democracia. O que se vê hoje ultrapassa o debate civilizado e mergulha em um terreno moralmente degradado: o da desumanização do adversário.
Nos últimos anos, parte da imprensa brasileira tem demonstrado uma postura que vai além da crítica política. Em certos momentos, transparece algo mais sombrio: uma expectativa velada — e às vezes nem tão velada assim — pela morte de um adversário político. No caso específico do ex-presidente Jair Bolsonaro, não são poucos os comentários, insinuações ou expressões que deixam escapar uma satisfação mórbida diante da possibilidade de seu desaparecimento físico.
Isso não é jornalismo.
Isso é degradação moral.
O jornalismo, em sua essência, deveria ser uma atividade nobre. Uma profissão fundada no compromisso com a verdade, com a informação responsável e com o respeito à dignidade humana. Quando jornalistas passam a agir como militantes rancorosos, celebrando o sofrimento ou esperando a morte de alguém, deixam de exercer a função pública da imprensa e passam a atuar como operadores de ódio.
E então surge uma pergunta inevitável: que tipo de profissionais as faculdades de jornalismo estão formando?
Homens e mulheres que deveriam ter sido treinados para investigar, contextualizar e informar parecem, em muitos casos, ter sido moldados para julgar, condenar e humilhar. O espírito crítico foi substituído pela arrogância moral. A busca pela verdade foi trocada pela busca por aplausos ideológicos.
Formou-se uma geração de comentaristas que se comporta como donos da virtude pública — incapazes de reconhecer limites éticos elementares. São figuras que falam com desprezo, escrevem com rancor e analisam com soberba. O contraditório, que deveria ser a base do pensamento jornalístico, tornou-se um inimigo a ser eliminado.
Esse comportamento revela algo mais profundo do que mera militância política. Revela uma crise de caráter.
O jornalismo que abandona a empatia e passa a desejar o infortúnio físico de um adversário não está apenas falhando profissionalmente — está falhando humanamente. A ética elementar da convivência social exige que a divergência não se transforme em desumanização.
Criticar ideias é legítimo.
Criticar governos é necessário.
Mas esperar pela morte de alguém — ou demonstrar satisfação diante dessa possibilidade — é o sintoma de uma sociedade adoecida.
Quando jornalistas, que deveriam ser mediadores da informação e guardiões da responsabilidade pública, passam a agir dessa maneira, algo muito grave está acontecendo no tecido moral do país.
O problema, portanto, não é apenas político. É civilizacional.
O Brasil parece viver um momento em que parte da elite intelectual trocou a razão pela paixão ideológica, a serenidade pelo ressentimento e a ética pela vaidade. Muitos falam como se fossem juízes da história, quando na verdade são apenas comentaristas de ocasião, presos à bolha de aplausos que os cerca.
E assim seguimos: um país onde alguns profissionais da imprensa parecem ter perdido a capacidade de reconhecer no outro um ser humano.
Talvez o diagnóstico mais honesto seja simples e duro:
o Brasil está doente.
Doente de ódio.
Doente de arrogância.
Doente de uma imprensa que, em certos momentos, esquece que o primeiro dever do jornalismo é preservar a humanidade — inclusive a de quem se discorda.
Porque quando a morte do adversário passa a ser vista como solução ou alívio, já não estamos mais diante de um debate político.
Estamos diante da falência moral de uma parte da sociedade.
José Sidney Andrade dos Santos
Filósofo, Sociólogo, Escritor, Psicanalista







