Irã em ebulição: protestos ganham força com crise econômica, líder enfraquecido e ameaças de intervenção externa
A primeira impressão é de que o Irã já enfrentou ondas de protestos semelhantes, nas quais o regime dos aiatolás se manteve no poder. A resposta atual, que dura mais de duas semanas, segue o padrão: repressão brutal com centenas de mortos e milhares de presos, além do bloqueio da internet e telefonia para isolar os manifestantes.
No entanto, há diferenças importantes em relação às mobilizações de 2009, motivadas pelo resultado eleitoral, e de 2022, desencadeadas pela morte de Mahsa Amini após ser presa por não usar o véu. A insatisfação popular de agora se alimenta de uma grave crise econômica e da recente guerra de 12 dias com Israel, em junho passado.
O líder supremo, aiatolá Ali Khamenei, de 86 anos, enfrenta problemas de saúde e não há um sucessor claro. Seus aliados regionais, como Hezbollah e Hamas, também estão enfraquecidos. Paralelamente, há a disposição dos EUA em apoiar os manifestantes e a possibilidade de intervenção militar, lembrando o caso da Venezuela.
Segundo o jornal “The Wall Street Journal”, a administração Trump avalia diversas opções, incluindo ataques militares, armas cibernéticas, sanções ampliadas e apoio online a grupos opositores. Já pressiona com tarifas de 25% sobre países que mantêm negócios com o Irã. O presidente americano admitiu analisar a situação “com muita seriedade” e acredita que a repressão aos protestantes pode ter cruzado uma “linha vermelha” para a intervenção.
Os protestos se espalharam pelas 31 províncias do país, e o regime luta para contê-los. Mesmo que diminuam, a economia iraniana está em declínio, e a indignação pública tende a aumentar. “Um colapso total da República Islâmica não é necessariamente iminente, mas a revolução iraniana está chegando ao fim”, analisa Vali Nars, professor da Universidade Johns Hopkins, em artigo divulgado pelo Project Syndicate.
O descontentamento é impulsionado pela desvalorização de 40% do rial e pela inflação descontrolada, tendo como ponto de partida a insatisfação dos comerciantes do Grande Bazar do Irã – um setor tradicionalmente leal ao regime desde a Revolução Islâmica de 1979. As reformas de austeridade anunciadas pelo presidente Masoud Pezeshkian não surtiram efeito, e o foco dos protestos rapidamente mudou para a exigência de mudança de regime.
A lacuna geracional também é um fator crucial: 47% dos iranianos nasceram após a Revolução Islâmica e têm menos de 30 anos. São eles que lideram os protestos, invadem prédios estatais e queimam fotos de Khamenei. O bloqueio da internet, embora vise desconectar a população, acaba alimentando o ciclo vicioso e prejudicando a economia do país. A combinação desses fatores indica que o medo está perdendo força, enquanto o regime demonstra pouca capacidade de implementar reformas de curto prazo.
Com informações do G1










