Por Jose Sidney Andrade dos Santos
Em um momento em que a sociedade brasileira clama por tolerância e respeito às diferenças, surge mais uma voz dissonante que ataca abertamente um dos segmentos mais expressivos da população: os evangélicos. O alvo desta análise é Eduardo Bueno, conhecido popularmente como “Peninha”, e sua recente declaração polêmica que sugere que evangélicos deveriam ser proibidos de votar, confinados aos seus cultos e tratados como “gado pastando” ao lado de seus pastores. Tal afirmação, proferida em um vídeo intitulado “Com Mil Raios” em seu canal no YouTube “Buenas Ideias”, não apenas revela um profundo preconceito, mas também ameaça os pilares da democracia e da liberdade religiosa no Brasil. Neste artigo, examinaremos quem é Eduardo Bueno, seus valores e importância, a quem interessa esse tipo de declaração e se seria o caso de os evangélicos de todo o país se unirem em uma demanda coletiva contra ele.
Quem é Eduardo Bueno?
Eduardo Bueno nasceu em 30 de maio de 1958, em Porto Alegre, Rio Grande do Sul. Formado em jornalismo pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, ele iniciou sua carreira aos 17 anos como repórter no jornal Zero Hora. Ao longo dos anos, atuou como editor, roteirista e tradutor em diversos veículos de comunicação. Seu apelido “Peninha” vem dos tempos iniciais na imprensa gaúcha, onde ganhou destaque em programas educativos, como “Pra Começo de Conversa” na TV Educativa de Porto Alegre.
Bueno é autor de uma extensa obra literária focada na história brasileira, com destaque para a coleção Brasilis, que inclui títulos como A Viagem do Descobrimento (1998), Náufragos, Traficantes e Degredados (1998), Capitães do Brasil (1999) e A Coroa, a Cruz e a Espada (2006). Esses livros venderam centenas de milhares de cópias e ajudaram a popularizar a história nacional de forma acessível. Ele também traduziu obras icônicas, como On the Road de Jack Kerouac, contribuindo para a disseminação da cultura beatnik no Brasil. Outras publicações suas abordam temas variados, desde a história de instituições como a Caixa Econômica Federal até biografias de bandas como os Mamonas Assassinas e graphic novels sobre personagens como Zé Carioca.
Atualmente, Bueno comanda o canal “Buenas Ideias” no YouTube, com cerca de 1,5 milhão de inscritos, onde narra episódios da história brasileira de maneira informal e divertida, vestindo-se por vezes como figuras históricas. Ele apresentou séries na TV Globo e no SporTV, e recebeu a Ordem do Mérito Cultural em 2003. Em resumo, *Bueno é um divulgador de história, não um historiador acadêmico rigoroso*, como ele mesmo admite, priorizando narrativas leves e curiosidades para o público leigo.
Quais São Seus Valores e Importância?
Os valores de Eduardo Bueno parecem ancorados em uma visão secular e progressista, com ênfase na disseminação cultural e histórica de forma democrática e acessível. Ele se posiciona como um defensor da educação popular, elogiado por historiadores como Lilia Schwarcz e Mary Del Priore por tornar a história brasileira palatável para as massas. Sua importância reside justamente nisso: em um país onde o ensino de história muitas vezes é deficiente, Bueno preenche uma lacuna, levando conhecimento a milhões via livros, TV e internet. Suas obras são usadas em salas de aula, e seu canal no YouTube é uma ferramenta valiosa para engajar jovens com o passado nacional.
Sua ascensão, no entanto, deve-se em grande parte à sua intrínseca relação com o PT (Partido dos Trabalhadores). Bueno foi filiado ao partido por um período, tendo declarado publicamente apoio a Lula em eleições recentes e defendido em entrevistas que “não é hora de falar mal do PT”. Essa ligação com o campo progressista e de esquerda abriu portas em veículos de comunicação alinhados ideologicamente, como participações em programas da Globo e em círculos culturais que valorizavam narrativas históricas com viés crítico ao conservadorismo. Essa conexão política não só impulsionou sua visibilidade midiática, mas também contribuiu para sua projeção como figura “popular” e “acessível” em ambientes que rejeitam visões religiosas conservadoras. No entanto, seus valores revelam contradições preocupantes. Embora defenda a acessibilidade ao conhecimento, Bueno demonstra intolerância com visões de mundo que divergem da sua, especialmente as religiosas. Suas declarações recentes expõem um viés antirreligioso, particularmente contra os evangélicos, que ele retrata como manipulados e incapazes de exercer cidadania plena. Essa postura não é isolada; no passado, ele já criticou influências religiosas na política, mas o tom atual escalou para o que muitos veem como discurso de ódio. Sua importância cultural, portanto, é dupla: positiva na educação histórica, mas negativa quando usada para promover divisão e preconceito, especialmente quando ancorada em alianças políticas que o blindaram por anos.
A Quem Interessa Esse Tipo de Declaração?
Declarações como as de Bueno não surgem no vácuo; elas servem a interesses específicos. Primeiramente, beneficiam setores seculares e de esquerda que veem o crescimento evangélico como uma ameaça ao seu domínio cultural e político. No Brasil, os evangélicos representam cerca de 30% da população e têm influência crescente em eleições, apoiando pautas conservadoras como família, vida e liberdade religiosa. Atacar esse grupo como “incapaz de votar” reforça narrativas que buscam deslegitimar sua participação democrática, favorecendo elites intelectuais e midiáticas que se posicionam como “guardiãs da razão”.
Além disso, tais falas interessam a quem lucra com a polarização: influenciadores digitais, partidos políticos opositores e até a própria mídia sensacionalista, que amplifica controvérsias para gerar cliques e visualizações. No caso de Bueno, seu canal ganha visibilidade com polêmicas, atraindo um público que aplaude o escárnio contra religiosos. Por fim, interessa a agendas antirreligiosas globais, que veem o cristianismo evangélico como obstáculo ao progressismo secular. Em última análise, essas declarações enfraquecem a coesão social e fortalecem quem deseja um Brasil laico à força, ignorando que a Constituição garante a liberdade religiosa e o direito ao voto universal.
Seria o Caso dos Evangélicos do Brasil Inteiro Demandarem Contra Ele?
Sim, absolutamente. As palavras de Eduardo Bueno ultrapassam os limites da liberdade de expressão e configuram intolerância religiosa, conforme previsto no artigo 208 do Código Penal brasileiro, que pune o vilipêndio a atos religiosos ou crenças. Sua sugestão de proibir evangélicos de votar não é mera opinião; é uma incitação ao ódio que ameaça direitos fundamentais, como o sufrágio universal (artigo 14 da Constituição). Já há inquérito policial instaurado pela Polícia Civil e representações no Ministério Público, como a protocolada pelo deputado Leonardo Siqueira (Novo-SP), alegando discurso de ódio.
Os evangélicos de todo o Brasil deveriam se unir em uma ação coletiva, como uma class action ou petições em massa, não por vingança, mas por defesa da dignidade e da democracia. Como pastor batista, creio no perdão cristão, mas também na justiça: “Não vos vingueis a vós mesmos, amados, mas dai lugar à ira; porque está escrito: A mim me pertence a vingança; eu é que retribuirei, diz o Senhor” (Romanos 12:19). No entanto, ignorar tais ataques abre precedentes perigosos. Uma demanda nacional enviaria uma mensagem clara: os evangélicos não são “gado”, mas cidadãos plenos, e não tolerarão ser silenciados.
Em conclusão, Eduardo Bueno, apesar de sua contribuição à história popular, erra gravemente ao usar sua plataforma para disseminar preconceito. Que este episódio sirva de lição para o respeito mútuo em uma nação plural. Aos irmãos evangélicos: oremos, mas também ajamos com sabedoria e unidade.
Jose Sidney Andrade dos Santos
Filosofo, Sociologo, Escritor, Psicanalista
Pastor da PIB de Candeias do Jamari













