Por Jose Sidney Andrade dos Santos
Ao longo das últimas duas décadas, consolidou-se no Brasil uma narrativa quase automática: o Nordeste como reduto eleitoral do Partido dos Trabalhadores (PT). Essa associação, repetida à exaustão no debate político, levanta uma pergunta incômoda — e necessária: o problema está no PT ou no eleitor que insiste em votar nele?
Responder a essa questão exige mais do que paixão ideológica; exige olhar para os dados, para a história e, sobretudo, para a realidade social da região.
1. O Nordeste nas seis vitórias do PT: um padrão consistente
Desde 2002, o PT venceu seis eleições presidenciais (2002, 2006, 2010, 2014, 2022 e o segundo turno de 2018, mesmo sem vitória nacional), sempre com desempenho expressivo no Nordeste. Em 2010, por exemplo, Dilma Rousseff obteve mais de 70% dos votos na região. Em 2014, repetiu desempenho semelhante, garantindo sua reeleição com base no eleitorado nordestino.
Já em 2022, Lula alcançou cerca de 69% dos votos válidos no Nordeste, sendo decisivo para sua vitória nacional (). Em alguns estados, ultrapassou 70%, consolidando a região como seu principal bastião eleitoral.
Não se trata de um fenômeno pontual — é um padrão político consolidado.
2. O que mudou no Nordeste nesse período?
É impossível negar que houve mudanças significativas na região ao longo dos governos petistas. Programas sociais, ampliação do acesso ao ensino superior, crédito facilitado e políticas de inclusão econômica contribuíram para uma melhora relativa nas condições de vida.
O chamado “lulismo” criou um vínculo que vai além da política tradicional. Trata-se de uma identificação simbólica: o líder que saiu do Nordeste pobre e chegou ao poder, trazendo consigo políticas voltadas aos mais vulneráveis.
No entanto, essa transformação não resolveu problemas estruturais históricos:
• Baixa industrialização
• Dependência de transferências federais
• Fragilidade na educação básica
• Altos índices de pobreza em diversas áreas
Ou seja, houve avanços — mas não ruptura com o atraso estrutural.
3. O voto nordestino é “dependente” ou consciente?
Uma crítica recorrente é que o eleitor nordestino vota por dependência de programas sociais. Essa visão, além de simplista, ignora fatores mais complexos.
O voto é, muitas vezes, racional dentro da realidade vivida. Quem percebe melhoria concreta tende a apoiar quem governou. Isso ocorre em qualquer região do mundo.
Por outro lado, também é legítimo questionar: até que ponto esse apoio contínuo impede a alternância de poder e a cobrança por resultados mais profundos?
A democracia exige memória, mas também exige senso crítico.
4. O PT ainda é o mesmo?
Outro ponto central é reconhecer que o PT de hoje não é exatamente o mesmo de 2002. Escândalos, crises econômicas e mudanças internas alteraram a percepção do partido ao longo do tempo.
Inclusive, sinais recentes indicam desgaste até mesmo no Nordeste, com queda de popularidade e divisões políticas regionais.
Isso demonstra que o apoio não é incondicional — ele pode mudar.
5. Afinal, quem é o problema?
A pergunta central deste artigo não admite resposta simplista.
Não é apenas o PT.
Não é apenas o eleitor.
O problema — ou melhor, o desafio — está na relação entre ambos.
• Um partido que, muitas vezes, se acomoda em sua base eleitoral
• Um eleitor que, por vezes, vota mais pela memória do que pela análise do presente
Mas também há virtudes:
• Um povo que reconhece quem lhe trouxe melhorias
• Uma tradição política que inclui os mais pobres no debate nacional
Conclusão
O Nordeste não é um erro eleitoral — é um reflexo da sua história, das suas necessidades e das escolhas possíveis dentro de sua realidade.
Culpar o eleitor é ignorar sua experiência.
Absolver completamente o partido é ignorar suas responsabilidades.
A maturidade democrática exige mais: menos rótulos, mais consciência.
A pergunta, portanto, não é apenas “quem é o problema?”.
A pergunta correta é: quem está disposto a mudar — o político ou o eleitor?
E talvez a resposta mais honesta seja: os dois precisam.
Jose Sidney Andrade dos Santos
Filosofo, Sociólogo, Escritor Psicanalista
















