Uma pesquisa inovadora realizada pelo Instituto Mamirauá, na Amazônia Central, trouxe à luz a primeira evidência de ingestão de microplásticos por um primata que vive nas árvores: o guariba (Alouatta juara), conhecido popularmente como macaco-bugio. O estudo, publicado na revista EcoHealth, acende um sinal de alerta sobre a contaminação por plásticos em florestas tropicais e seus efeitos sobre a vida selvagem.
Os cientistas analisaram o conteúdo estomacal de 47 animais, obtidos a partir de macacos caçados por comunidades locais para subsistência em duas Reservas de Desenvolvimento Sustentável no Amazonas – Mamirauá e Amanã. É importante ressaltar que nenhum animal foi morto especificamente para a pesquisa, e os estômagos foram doados por caçadores que já praticavam a atividade como parte de sua cultura e necessidade.
Em dois dos estômagos analisados, ambos de animais que habitam áreas de floresta de várzea (que são inundadas periodicamente), foram identificadas fibras de microplástico com menos de 5 mm de comprimento. Essas partículas se assemelham a filamentos de redes de pesca abandonadas, conhecidas como “redes fantasmas”, um problema crescente nos rios amazônicos.
Como o plástico chega aos macacos?
A presença de microplásticos em um animal que vive nas árvores e se alimenta principalmente de folhas (folívoro) surpreendeu os pesquisadores. A hipótese mais plausível é que, durante as cheias dos rios, as redes de pesca perdidas se desagregam e seus fragmentos são levados pela água, contaminando a vegetação que serve de alimento aos macacos. A pesquisadora do Instituto Mamirauá, Anamelia Jesus, explica: “Encontrar essas partículas de plástico no estômago de guaribas é preocupante. A poluição plástica é um problema difícil de controlar e encontrá-la na fauna silvestre, em um ambiente conservado como as reservas, é um alerta ainda maior. Principalmente porque um animal arborícola tem menos contato com resíduos no solo da floresta.”
Além dos riscos diretos aos animais – como dificuldades digestivas, desnutrição e toxicidade –, o consumo da carne desses animais por populações humanas pode levar à bioacumulação de microplásticos no organismo das pessoas. Estudos recentes já detectaram a presença de microplásticos na placenta humana, associados a processos de estresse oxidativo e inflamação.
A pesquisa do Instituto Mamirauá reforça a necessidade urgente de políticas públicas que reduzam o uso de plásticos descartáveis, incentivem o desenvolvimento de materiais alternativos e promovam o descarte adequado de resíduos, especialmente de artigos de pesca. A poluição plástica não é mais um problema restrito a áreas urbanas e modificadas pela ação humana, mas também atinge regiões remotas e preservadas como a Amazônia.









