A antropóloga paraense Fiama Góes defendeu seu mestrado na Universidade Federal do Pará (UFPA) com uma pesquisa sobre a vida e as dinâmicas sociais de mulheres negras dentro do Terreiro Rundembo Gunzó de Bamburusema Junsara, em Belém. O estudo, intitulado ‘DAS MAMETUS ÀS MUZENZAS: As articulações e vivências de mulheres negras dentro de um terreiro de Candomblé e os reflexos no exercício da vida em comunidade’, explora a experiência dessas mulheres tanto dentro quanto fora do terreiro.
A pesquisa revela que o terreiro funciona como um verdadeiro ‘quilombo urbano’, um espaço de resistência cultural onde as relações são estruturadas em um sistema matriarcal, conforme vivenciado pelas filhas e filhos da casa. Fiama Góes detalha a rotina, os saberes e as perspectivas individuais e coletivas das mulheres, observando também suas redes de apoio e projetos sociais.
Dentro do Terreiro Rundembo Gunzó, a autora identificou uma hierarquia “contra-hegemônica” que valoriza o conhecimento e o poder das mulheres negras, permitindo a mobilidade e a evolução constante. O cuidado com os mais jovens e idosos, liderado pela sacerdotisa Mam’etu Muagilê (Mãe Beth), é um princípio central. “Ao participar dessa outra forma organizacional, o primeiro sentimento que tive foi o de estranhamento…”, relata a autora, contrastando a valorização do cuidado no terreiro com a subalternização das mulheres na cultura ocidentalizada.

A pesquisa também destaca o papel do Instituto Bamburusema de Cultura Afro-Amazônica (Ibamca), criado pela comunidade do terreiro para ampliar seu impacto social e cultural, especialmente entre a população afro-amazônica das periferias de Belém. Apesar dos desafios burocráticos para obter o CNPJ, o Ibamca já desenvolve diversas ações sociais e culturais, como distribuição de cestas básicas, projetos de capoeira e cineclubes, e foi reconhecido como Ponto de Memória pelo Instituto Brasileiro de Museus (Ibram).
Fiama Góes conclui que o conhecimento e a articulação das Filhas de Santo foram cruciais para que o terreiro acessasse políticas públicas através do Ibamca, abrindo espaço para a comunidade negra em áreas tradicionalmente excludentes. A pesquisadora enfatiza que a perspectiva comunitária e o espírito de ‘aquilombamento’ são os motores que impulsionam o terreiro e o Ibamca a trabalhar em prol do povo preto.
Com informações do Portal Amazônia.











