O desaparecimento e redescoberta de espécies animais sempre chamam a atenção da comunidade científica. Na Amazônia, com sua imensa biodiversidade, essas histórias ganham contornos ainda mais surpreendentes.
Um exemplo fascinante é o da Maria-da-campina (Hemitriccus inornatus), uma ave pequena e discreta que se manteve “perdida” por mais de 160 anos, até ser reencontrada em seu habitat natural.
A história dessa ave começou em 1831, quando o naturalista austríaco Johann Natterer coletou um exemplar na região do alto Rio Negro, em uma área de campina – um tipo de vegetação rala e arenosa típica da Amazônia. O espécime foi enviado para Viena, na Áustria, e descrito como uma nova espécie, recebendo o nome Inornatus, que significa “não ornamentado”, refletindo sua aparência simples.
Por décadas, o exemplar ficou praticamente esquecido, e cientistas chegaram a questionar se não seria apenas uma variação de outra ave já conhecida. A falta de cores vibrantes e o comportamento reservado da Maria-da-campina contribuíram para que ela passasse despercebida.
A reviravolta aconteceu em 1993, quando os ornitólogos Andrew Whittaker e Kevin Zimmer, durante uma expedição de observação de aves perto de Manaus, ouviram um canto peculiar. Após investigar, eles encontraram o pequeno pássaro e confirmaram que se tratava da espécie coletada por Natterer mais de um século antes.
O ornitólogo Mário Cohn-Haft, em seu canal Cantos da Amazônia, descreve o caso como emblemático da ornitologia brasileira, mostrando que a Amazônia ainda guarda muitos segredos em áreas pouco exploradas.
A Maria-da-campina tem plumagem verde-oliva escura na parte superior e branca amarelada na parte inferior. Seu canto é único, descrito como um som agudo, cristalino e quase “gaguejado”. A ave vive em áreas de vegetação rala, a cerca de cinco metros do solo, e seu comportamento discreto dificulta a observação. Curiosamente, a reprodução do seu canto (playback) geralmente não atrai a ave, mas a silencia.
A redescoberta da Maria-da-campina impulsionou novas pesquisas sobre as campinas amazônicas e as espécies que habitam esses ambientes. Para os especialistas, o caso reforça a importância de ampliar os estudos em diferentes tipos de vegetação da Amazônia, pois a aparente simplicidade desses ambientes pode esconder uma biodiversidade surpreendente.
A redescoberta da Maria-da-campina é um lembrete da riqueza natural da Amazônia e da necessidade de proteger esse patrimônio para as futuras gerações.









