Em regiões de fronteira da Amazônia, a febre é quase automaticamente associada à malária, tanto pela população quanto pelos serviços de saúde. No entanto, essa “certeza” pode esconder a presença de vírus como os da dengue, chikungunya e parvovírus B19, que exigem abordagens médicas distintas.
Um estudo recente, publicado na Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (RSBMT), revelou que a circulação simultânea do parasita Plasmodium vivax (principal causador da malária no Brasil) e de diversos vírus representa um desafio crítico de saúde pública, especialmente em locais como Oiapoque (AP), na divisa com a Guiana Francesa.
A pesquisa, conduzida por cientistas da Universidade Federal Fluminense (UFF) e da Universidade Federal do Amapá (Unifap), alerta que o histórico predomínio da malária na região ofusca outras infecções potencialmente graves. “A circulação simultânea é um grande desafio porque malária e arboviroses causam sintomas muito parecidos. Em regiões como Oiapoque, existe uma tendência natural de associar toda febre à malária. Isso faz com que dengue e chikungunya passem despercebidas”, afirmam o doutorando Marcelo Cerilo e o professor Ricardo Machado, da UFF.
Essa confusão diagnóstica acarreta riscos diretos aos pacientes. A malária requer medicação específica para eliminar o parasito, enquanto a dengue demanda monitoramento para evitar complicações como sangramentos. Outra preocupação é o parvovírus B19, que pode causar anemia severa, especialmente em pacientes já anêmicos devido à malária.

“A coinfecção com o parvovírus é crítica porque ele ataca a medula óssea e interfere na produção de células do sangue. Se o paciente já está anêmico por causa da malária, isso pode levar a uma anemia severa súbita, que muitas vezes não é investigada porque o foco está apenas no parasita”, alerta Machado.
O intenso fluxo de pessoas na fronteira e a presença de áreas de garimpo agravam o problema, criando um ambiente propício para a sobreposição dessas doenças e sobrecarregando os serviços de saúde. A análise laboratorial indicou que uma parcela significativa da população local já teve contato prévio com os vírus da dengue e da chikungunya, evidenciando sua circulação ativa na região. Os pesquisadores defendem a adoção de protocolos de atendimento integrados e a investigação de arboviroses além da malária para garantir diagnósticos e tratamentos adequados.
Com informações do Portal Amazônia.












