Ricardo Lewandowski, jurista de carreira longa e controversa, ascendeu ao panteão do poder judiciário brasileiro em 2006, quando foi indicado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva para uma vaga no Supremo Tribunal Federal (STF). Nascido no Rio de Janeiro em 1948, Lewandowski formou-se em Ciências Políticas e Sociais e em Direito, passando por cargos como desembargador no Tribunal de Justiça de São Paulo antes de chegar ao ápice do Judiciário. Sua presidência no STF, entre 2014 e 2016, foi marcada por decisões polêmicas, incluindo o papel de revisor no julgamento do Mensalão, onde adotou posturas vistas por críticos como lenientes com figuras políticas alinhadas ao PT. Após uma trajetória de 17 anos no STF, aposentou-se compulsoriamente em 2023 ao completar 75 anos, mas não demorou a retornar aos holofotes: em janeiro de 2024, Lula o nomeou para o Ministério da Justiça e Segurança Pública, cargo que assumiu em 1º de fevereiro do mesmo ano, substituindo Flávio Dino. Essa indicação, vista por opositores como um aceno ao establishment jurídico-petista, colocava Lewandowski à frente de instituições como a Polícia Federal (PF), responsável por investigações sensíveis.
Mas é a partir dessa nomeação que a narrativa de Lewandowski ganha contornos de um thriller financeiro. Apenas um mês após tomar posse como ministro – em março de 2024 –, ele adquiriu um imóvel de luxo na Zona Sul de São Paulo por R$ 9,4 milhões. O vendedor? Alan de Souza Yang, conhecido como “China”, um empresário investigado pela PF por sonegação fiscal bilionária no setor de combustíveis e com supostos elos ao Primeiro Comando da Capital (PCC), uma das maiores organizações criminosas do país. A transação foi realizada por meio de uma empresa familiar em sociedade com seus filhos, o que levanta questionamentos sobre transparência e possíveis manobras para ocultar origens de recursos.
Os detalhes da operação são ainda mais intrigantes. Meses antes, em 2023, a esposa de “China” havia comprado o mesmo imóvel por apenas R$ 4 milhões – uma valorização repentina e inexplicável de mais de 135% em pouco tempo. Um mês após a venda para Lewandowski, a Justiça Federal de São Paulo determinou o bloqueio do bem devido às investigações em curso contra o vendedor, o que impede sua comercialização e pode levá-lo a leilão caso haja condenação. Em 2025, já sob a gestão de Lewandowski no Ministério da Justiça, a PF deflagrou a Operação Carbono Oculto contra “China” e seu grupo, aprofundando as apurações sobre lavagem de dinheiro e ligações com o crime organizado.
Aqui surge o cerne da crítica: como um servidor público de carreira, mesmo com salários elevados no STF (onde recebia cerca de R$ 39 mil mensais, mais benefícios), acumula patrimônio para uma compra milionária logo após assumir um cargo que supervisiona as mesmas forças policiais investigando o vendedor? Lewandowski, em nota, alegou “boa-fé” na transação, afirmando desconhecer o histórico de “China” e que a compra foi legal, sem irregularidades. No entanto, essa defesa soa conveniente demais para críticos, que apontam para um padrão de proximidade com investigados – lembre-se de sua consultoria ao Banco Master, envolvido em escândalos, antes da nomeação ministerial.
Essa história de “superação financeira” parece mais um conto de fadas jurídico do que realidade palpável. De um juiz de origens modestas a proprietário de uma mansão avaliada em cifras que superam o patrimônio declarado de muitos brasileiros honestos,
Lewandowski exemplifica o abismo entre a elite do poder e o cidadão comum. Seria mera coincidência que a compra ocorra no auge de seu poder ministerial, com um vendedor sob escrutínio da PF que ele comandava? Ou haveria ilícitos velados, como favorecimentos ou informações privilegiadas? As investigações em andamento podem esclarecer, mas o cheiro de impunidade já paira no ar, reforçando a percepção de que, no Brasil, justiça é para alguns – e mansões, para os bem conectados.
José Sidney Andrade dos Santos
Filósofo, Sociólogo, Escritor












