Imagens inéditas feitas por indígenas revelam a continuidade da destruição causada pelo garimpo ilegal na Terra Indígena Yanomami, quase três anos após a declaração de emergência na região. As fotos mostram crateras abertas na floresta, agora cheias de água, e aeronaves sobrevoando a área.
Um vídeo registrado em outubro deste ano na região de Marauiá, próxima à fronteira com a Venezuela, documenta a devastação. “Essa área é destruída pelo garimpo, tá vendo aí… Olha como está… tudo é destruído”, relata um indígena que filma a cena.
A Terra Yanomami, o maior território indígena do Brasil, com quase 10 milhões de hectares entre Amazonas e Roraima, e parte da Venezuela, tem sido alvo do garimpo desde pelo menos a década de 1970. A atividade ilegal tem graves impactos na saúde e no modo de vida da população indígena.
Dados do Sistema de Alertas ‘Wãnori’, ferramenta de monitoramento operada pelos próprios indígenas, indicam que foram registrados 41 alertas no primeiro semestre de 2025, a maioria relacionados a invasões e ataques.
Dário Kopenawa, vice-presidente da Hutukara Associação Yanomami (HAY), explica que os garimpeiros se concentram em áreas com menor fiscalização. “Os garimpeiros sabem onde tem bases fortes e aonde não têm. Então, onde tem os buracos, é porque os garimpeiros estão entrando na Terra Yanomami”, afirma.
Alertas de garimpeiros e aeronaves
Entre agosto e outubro, foram registrados pelo menos oito alertas de aeronaves suspeitas sobre as regiões de Apiaú e Xitei, em Roraima, e Marauiá, no Amazonas. Em setembro, um avião pousou em uma pista conhecida como Pupunha, em Xitei (Alto Alegre, RR), e garimpeiros foram vistos chegando ao local com munição. Dias depois, outro avião vindo da Venezuela pousou na mesma área.
Em outubro, dois barcos carregados de suprimentos para o garimpo foram avistados no rio Uraricoera, na região de Palimiú. Lideranças indígenas relatam uma tentativa de retorno dos garimpeiros à área, conforme o monitoramento. O rio Uraricoera é uma rota frequentemente utilizada pelos garimpeiros para acessar as áreas de mineração. Em 2021, comunidades da região foram vítimas de ataques a tiros, e confrontos com agentes federais já ocorreram.
A Terra Yanomami está em emergência de saúde pública desde janeiro de 2023. Desde então, o governo federal tem implementado ações para melhorar o atendimento aos indígenas e combater o garimpo ilegal.
Demandas Yanomami
Em outubro, lideranças Yanomami e Ye’kwana elaboraram a Carta de Surucucu, reconhecendo os esforços do governo, mas cobrando medidas urgentes, como a continuidade da desintrusão dos garimpeiros e a garantia de que eles não retornarão. A carta também pede que a Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) transforme os investimentos em resultados concretos e que seja implementada uma educação diferenciada, com Territórios Etnoeducacionais que ofereçam escolas bilíngues e interculturais.
“A gente espera a pós-desintrusão. Isso significa que não há mais retorno dos garimpeiros, é isso que o governo federal tem que decretar. E quando você fala desintrusão, você pede licença, isso significa que vai voltar. Então, como nós, Yanomami, precisamos, é fato: os invasores não podem voltar mais na Terra Yanomami”, declarou Dário Kopenawa.
O que dizem os órgãos
A Casa de Governo informou que as ações de combate ao garimpo ilegal são permanentes. O Ministério da Saúde destacou os investimentos de mais de R$ 596 milhões na recuperação da saúde indígena desde a emergência, o aumento do número de profissionais de saúde e a reabertura de polos de saúde. O Ministério da Educação lançou a Política Nacional de Educação Escolar Indígena nos Territórios Etnoeducacionais (PNEEI-TEE), que busca garantir uma educação de qualidade, multilíngue e intercultural.
O Senado informou que um projeto de lei para aumentar as penas para crimes relacionados ao garimpo ilegal recebeu parecer favorável na Comissão de Meio Ambiente e aguarda decisão na Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania.










