Em Paris e outras regiões da França, existe uma modalidade peculiar de compra de imóveis que atrai compradores em busca de descontos significativos, mas exige uma dose extra de paciência: o “en viager”. Essa prática, embora represente uma pequena fatia do mercado imobiliário francês (menos de 1%), tem ganhado popularidade, impulsionada pelo envelhecimento da população e pela busca de segurança financeira na terceira idade.
O modelo funciona da seguinte maneira: o vendedor, geralmente um idoso, vende a propriedade a um comprador, mas continua residindo nela até o falecimento. O comprador, por sua vez, paga um valor inicial, conhecido como “bouquet” (que gira em torno de 30% do valor total do imóvel), e prestações mensais vitalícias ao vendedor. O montante das prestações é calculado com base na idade e na expectativa de vida do vendedor, o que influencia diretamente o desconto oferecido.
Existem duas variações do “en viager”: o “viager occupé”, onde o vendedor permanece no imóvel, e o “viager libre”, mais raro, que permite ao comprador ocupar ou alugar a propriedade imediatamente. A grande atração para o comprador é o potencial de economia, com descontos que podem chegar a 40% ou 60% em relação ao preço de mercado. No entanto, o risco reside na incerteza do tempo de espera pela posse do imóvel.
Um exemplo emblemático é o caso de Jeanne Calment, uma francesa que viveu até os 122 anos. Em 1967, o advogado André-François Raffray adquiriu sua casa em Arles sob o regime de “viager”. Raffray concordou em pagar 2.500 francos mensais a Calment até sua morte. No entanto, ele faleceu antes dela, em 1995, tendo pago o dobro do valor do imóvel sem jamais usufruir da propriedade. Este caso demonstra o risco inerente ao investimento, onde a longevidade do vendedor pode anular a vantagem financeira inicial.
Para os vendedores, o “en viager” representa uma oportunidade de complementar a renda na aposentadoria, garantir moradia durante a vida e, em alguns casos, evitar questões relacionadas à herança e impostos sucessórios. O aumento da expectativa de vida na França e em outros países desenvolvidos tem impulsionado a procura por este modelo, com anúncios frequentemente destacando a idade do vendedor para dar aos potenciais compradores uma estimativa do tempo de espera.
A prática do “en viager” reflete uma tendência global de envelhecimento populacional e a busca por soluções inovadoras no mercado imobiliário. Em países como Itália e Espanha, modelos semelhantes, ainda que menos difundidos, começam a surgir como alternativas para idosos que buscam segurança financeira e para compradores que desejam investir em imóveis com descontos.










