O novo primeiro-ministro francês, Sébastien Lecornu, enfrenta uma crescente pressão para implementar medidas de justiça fiscal, incluindo um imposto sobre grandes fortunas, em um momento de dificuldades econômicas e crescente demanda popular por maior equidade. A proposta, conhecida como “taxa Zucman”, prevê a cobrança de 2% ao ano sobre patrimônios superiores a 100 milhões de euros (cerca de R$ 626 milhões), impactando apenas 0,01% dos contribuintes franceses.
A iniciativa, idealizada pelo economista Gabriel Zucman, poderia gerar aproximadamente 20 bilhões de euros por ano (cerca de R$ 125 bilhões), um valor significativo para um governo que busca reduzir o déficit público e a dívida nacional, que atingem 5,8% do PIB e 114%, respectivamente. A discussão sobre o imposto ocorre em paralelo à elaboração do plano orçamentário para 2026 e em um contexto de instabilidade política, com o governo de Lecornu buscando apoio da oposição socialista para garantir sua governabilidade.
A proposta ganha força em meio a protestos e greves que reivindicam maior justiça fiscal. A Confederação Geral do Trabalho (CGT) da França, liderada por Sophie Binet, mobilizou centenas de milhares de manifestantes e adverte que o orçamento será definido nas ruas. Pesquisas de opinião indicam amplo apoio popular à taxa Zucman, com 86% dos franceses a favor da medida e 79% apoiando a redução de subsídios para grandes empresas.
No entanto, a proposta enfrenta forte oposição do setor empresarial e de partidos de direita. A federação patronal Medef ameaçou organizar uma mobilização em caso de aumento de impostos, classificando a taxa como uma forma de “expropriação”. O presidente Emmanuel Macron, desde 2017, tem adotado uma política de redução de impostos para empresas e grandes fortunas, visando aumentar a competitividade da economia francesa. O Senado francês aponta que os subsídios públicos às grandes empresas somaram pelo menos 211 bilhões de euros (cerca de R$ 1,32 trilhão) em 2023.
O debate francês sobre a tributação da riqueza reflete uma tendência global de questionamento das desigualdades econômicas e da concentração de renda. Em diversos países, cresce a pressão por políticas que promovam uma distribuição mais justa da riqueza e que garantam recursos para financiar serviços públicos essenciais. A decisão do governo francês terá implicações significativas para a economia do país e poderá influenciar o debate fiscal em outras nações europeias.
Lecornu, que prometeu “rupturas” em relação aos seus antecessores, já desistiu da supressão de feriados e do fim de benefícios “vitalícios” para ex-membros do governo, demonstrando uma postura mais aberta ao diálogo social. A implementação da taxa Zucman, no entanto, representa um desafio maior, que exigirá habilidade política e negociação com diferentes atores para garantir a aprovação no Parlamento.










