Por José Sidney Andrade dos Santos
A história não se repete, mas por vezes rima. Ao observar certas lideranças contemporâneas, é inevitável recordar figuras do passado que concentraram em si o centro simbólico do Estado. A comparação entre Luiz Inácio Lula da Silva e Luís XIV — ainda que separados por séculos, contextos e sistemas políticos distintos — convida a uma reflexão crítica sobre personalismo, culto à imagem e os riscos do narcisismo no exercício do poder.
Luís XIV, o “Rei Sol”, governou a França por mais de sete décadas. Sob sua autoridade, consolidou-se o absolutismo monárquico. A célebre frase “L’État, c’est moi” (“O Estado sou eu”), ainda que debatida quanto à sua literalidade histórica, sintetiza o espírito de sua administração: a centralização extrema, a construção de uma imagem majestática e a subordinação das instituições à vontade do soberano. O esplendor de *Palácio de Versalhes* simbolizava não apenas riqueza, mas a teatralização do poder.
No Brasil contemporâneo, críticos de Lula apontam traços que consideram semelhantes: forte personalismo, narrativa política centrada na própria figura e a construção de uma trajetória apresentada como epopeia histórica. A retórica do “nunca antes na história deste país” tornou-se marca registrada de seus discursos, reforçando a ideia de que sua liderança seria não apenas relevante, mas fundacional.
É evidente que há diferenças substanciais. Luís XIV era um monarca absoluto; Lula é um presidente eleito dentro de um regime democrático. Contudo, a crítica aqui não é institucional, mas psicológica e política: quando o governante passa a se confundir com o próprio destino da nação, abre-se espaço para o enfraquecimento do debate plural e da alternância saudável de poder.
O narcisismo político não se define apenas pela vaidade pessoal, mas pela incapacidade de admitir falhas, pela tendência a atribuir êxitos exclusivamente a si e fracassos a terceiros, e pela necessidade constante de validação pública. No caso de Luís XIV, o custo foi sentido em guerras dispendiosas, endividamento crescente e uma estrutura estatal que, após sua morte, deixou a França à beira de convulsões que culminariam, décadas depois, na Revolução.
No cenário brasileiro, opositores argumentam que políticas econômicas intervencionistas, expansão fiscal sem lastro sustentável e polarização institucional podem comprometer o equilíbrio estrutural do país. A concentração simbólica do poder em uma liderança carismática pode produzir ganhos eleitorais imediatos, mas tende a fragilizar instituições quando o debate público se torna refém de lealdades pessoais.
A história ensina que nações não prosperam quando dependem da aura de um único líder. O Estado moderno se sustenta sobre freios e contrapesos, sobre a impessoalidade administrativa e sobre a maturidade institucional. Quando a figura do governante eclipsa essas bases, o risco não é apenas econômico — é civilizacional.
Comparar Lula a Luís XIV não significa equiparar contextos, mas lançar luz sobre um padrão recorrente: o fascínio pelo líder que se apresenta como indispensável. O “Rei Sol” brilhou intensamente, mas deixou sombras profundas. O desafio de qualquer democracia é impedir que o brilho momentâneo de um governante obscureça a luz permanente das instituições.
A verdadeira grandeza política não reside em centralizar a história em si mesmo, mas em fortalecer as estruturas que sobrevivem ao próprio mandato. Quando o governante compreende que o Estado não lhe pertence, mas que ele pertence ao Estado, a nação respira. Caso contrário, a história — sempre paciente — cobra seu preço.
Pr. Jose Sidney Andrade dos Santos
Filosofo, Sociólogo, Escritor, Psicanalista
Primeira Igreja Batista de Candeias do Jamari – RO










