“Às vezes tem plantio, não tem árvore, rapaz desmata tudo. Vai virar o que? A água vai secar, vai fazer falta […] Como que a gente fica? Como que vamos viver?” A preocupação do cacique Alicio Francisco reflete a realidade da aldeia Tupinambá do Acuípe de Cima, em Ilhéus (BA).
Na comunidade, 11 famílias acessaram um empréstimo de aproximadamente R$ 50 mil para o cultivo de cacau com melhoramento genético e a recuperação de áreas degradadas da Mata Atlântica. A técnica utilizada é o cabruca, que consiste no desenvolvimento do fruto à sombra das árvores, preservando o bioma mais ameaçado do Brasil, segundo a Fundação SOS Mata Atlântica. Atualmente, restam apenas 24% da mata nativa.
Como o financiamento impulsiona a sustentabilidade
Os agricultores da aldeia Tupinambá planejam expandir as agroflorestas, combinando diversas espécies produtivas, como cacau, bananeiras, coqueiros, feijão e mandioca. Além disso, pretendem recuperar áreas anteriormente destinadas à pastagem. O financiamento provém do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), que oferece condições favoráveis, como juros reduzidos e prazos alongados.
“A gente pensava que não tinha como indígenas pegarem um projeto desse bom”, afirma Adalberto Lopes, integrante do grupo. O crédito rural é um exemplo da aplicação do financiamento climático no campo brasileiro.
A iniciativa destaca a importância de investir na agropecuária sustentável para alcançar as metas climáticas do país, que responde por 28% das emissões de poluentes, atrás apenas do desmatamento. O Pronaf é a principal fonte de recursos para financiar práticas sustentáveis na agropecuária, conforme a Climate Policy Initiative.
Desafios no acesso ao crédito e soluções
Apesar da disponibilidade do Pronaf, pequenos produtores e comunidades tradicionais enfrentam dificuldades para acessá-lo, seja por desconhecimento, falta de documentos ou incompreensão das regras. Para superar esses obstáculos, o Instituto Conexões Sustentáveis (Conexsus) criou a iniciativa CredAmbiental.
O projeto capacita moradores das comunidades para auxiliar os produtores na solicitação do crédito, desde a organização da documentação até a elaboração do projeto. Esses “ativadores de crédito” desmistificam informações equivocadas sobre o financiamento e orientam sobre o uso correto dos recursos.
“Os produtores pegavam o crédito e diziam que era algo que vinha do governo e não precisava pagar. Até hoje a gente atua muito em desconstruir essa informação”, explica Josué Castro, ativador de crédito. O Conexsus também oferece cursos sobre plantio sustentável e gestão de negócios.
Com a metodologia adotada, 98% dos produtores assessorados pelo Conexsus estão em dia com os pagamentos. Atualmente, 1.054 produtores possuem empréstimos do Pronaf obtidos por meio da iniciativa. O governo federal lançou o programa “Florestas Produtivas”, com proposta similar à da Conexsus, para promover a capacitação e o atendimento personalizado aos produtores.











