Com o avançar de 2026, muitas empresas já concluíram os ajustes sazonais de equipe típicos deste período e começam a reavaliar estruturas, custos e necessidades reais de pessoal para o ano. O movimento, recorrente neste período, mescla ajustes de curto prazo com reabertura gradual de vagas e exige leitura estratégica por parte de líderes e áreas de RH.
Dados oficiais ajudam a entender por que esse período concentra decisões sensíveis sobre pessoas, orçamento e modelo de contratação. Nos Estados Unidos, dados do Bureau of Labor Statistics (BLS) mostram que o varejo amplia contratações entre outubro e dezembro e, na sequência, concentra desligamentos nos meses de janeiro e fevereiro. Em ciclos recentes, o volume de demissões no início do ano praticamente compensou as vagas temporárias abertas no fim do ano anterior, um ajuste que já está em andamento neste primeiro bimestre.
O padrão se repete ao longo dos anos e indica que parte do aumento do desemprego no início do ano reflete reacomodação operacional, e não necessariamente uma deterioração estrutural do mercado.
Embora o varejo seja um dos exemplos mais visíveis dessa dinâmica, o fenômeno da sazonalidade se manifesta de formas distintas em outros setores. Em tecnologia, por exemplo, os ciclos não estão atrelados a datas comerciais, mas à duração e ao encerramento de projetos, fases de implementação, revisões orçamentárias e redefinições de roadmap ao longo do ano.
O retrato brasileiro nos primeiros meses do ano
No Brasil, o efeito também é recorrente. Levantamentos do IBGE e análises do Ibre/FGV mostram que a taxa de desocupação costuma subir no trimestre que engloba janeiro, em razão do encerramento de contratos temporários firmados no fim do ano, especialmente nos setores de comércio, serviços e logística.
Com o fechamento do primeiro mês do ano, grande parte desses desligamentos já foi absorvida pelas estatísticas, enquanto empresas começam a reabrir vagas mais alinhadas ao planejamento anual, o que tende a redistribuir oportunidades ao longo de fevereiro e março.
Para Sylvestre Mergulhão, CEO da Impulso, people tech especializada em produtividade e reestruturação de equipes, o começo do ano pede menos decisões impulsivas e mais organização estratégica da força de trabalho. “Esse é, historicamente, um período de ajustes finos. As empresas já sentiram o impacto do fim da demanda sazonal e agora passam a olhar para a operação real, para o orçamento anual e para as prioridades estratégicas, movimento que costuma se consolidar entre janeiro e fevereiro.”
Segundo ele, o erro mais comum é interpretar esse ciclo apenas como um momento de corte, sem conectar as decisões de desligamento e recontratação a uma visão mais ampla de eficiência e continuidade operacional. “O foco não deveria estar apenas no corte. É nesse período que as empresas têm a oportunidade de redesenhar suas equipes de forma mais eficiente, pensando no que faz sentido manter, ampliar ou complementar ao longo do ano”, explica Sylvestre.
Recontratações: menos volume, mais critério
Outro traço marcante deste início de ano é a postura mais cautelosa das empresas. Indicadores internacionais apontam que os volumes de contratação sazonal vêm sendo menores do que em ciclos anteriores, refletindo maior pressão por eficiência, automação e controle de custos fixos.
Na prática, isso significa que as recontratações que começam a surgir agora tendem a ser mais focadas em habilidades específicas, menos numerosas e mais conectadas a projetos e entregas claras. “O início do ano continua sendo uma janela importante para contratação, mas ela é mais seletiva. As empresas estão contratando melhor, não necessariamente mais”, destaca Mergulhão.
Nesse contexto, especialmente em áreas intensivas em conhecimento como tecnologia, cresce o uso do outsourcing como estratégia para acessar senioridade e especialização sem inflar a folha fixa. Diferente da lógica de contratações operacionais temporárias, esse modelo permite que empresas complementem suas equipes com profissionais altamente qualificados, alocados por projeto, escopo ou fase de execução.
Segundo o especialista, esse tipo de contratação costuma ganhar força logo após o período de ajustes de janeiro, quando os líderes já têm mais clareza sobre orçamento, escopo e metas do ano. “Depois que o ajuste pós-festas acontece, muitas empresas preferem testar estruturas com profissionais outsourced antes de abrir vagas permanentes. Isso reduz risco, acelera projetos e ajuda a tomar decisões mais embasadas.”
Equipes terceirizadas como parte da operação
Na avaliação do especialista, o outsourcing tem melhores resultados quando é tratado como parte do desenho da operação, e não apenas como resposta pontual a urgências. “As empresas que alcançam melhores resultados a partir deste modelo são, sobretudo, aquelas que já o consideram no planejamento do primeiro trimestre, como parte da estratégia de equipe.”
Sylvestre ressalta que a abordagem permite equilibrar agilidade, especialização e controle de custos, especialmente considerando lideranças que buscam previsibilidade em um mercado de trabalho estruturalmente sazonal.
O comportamento do mercado no início do ano reforça que demissões e recontratações pós-festas fazem parte da dinâmica regular do emprego. Para as empresas, a questão central passa a ser como antecipar esse ciclo e organizar equipes de forma mais eficiente.










