Roupas novas, ceias e a virada de ano são tradições populares no Réveillon. No entanto, para a maioria dos povos indígenas, a data não possui o mesmo significado simbólico, pois essas etnias não adotam o calendário gregoriano, mas sim organizam o tempo a partir dos ciclos da natureza.
Na Amazônia brasileira, com seus 391 povos (Censo IBGE 2022), cada etnia desenvolve calendários próprios baseados em fenômenos como chuvas, cheias, vazantes, plantio, pesca, caça e o movimento das constelações. Esse conhecimento ancestral é transmitido de geração em geração, orientando a vida social, econômica e espiritual das comunidades.
Embora muitos indígenas se familiarizem com o calendário gregoriano devido à proximidade com centros urbanos, eles mantêm suas próprias formas de medir o tempo. A divisão do tempo indígena acontece através das mudanças nas constelações, representadas graficamente por círculos que organizam os ciclos naturais ao longo do ano, considerando agricultura, subsistência e as constelações.

Comunidades próximas à linha do Equador iniciam o ano com a constelação da Jararaca, coincidindo com as enchentes (novembro/dezembro no calendário gregoriano). Diferente do calendário ocidental, essas datas são flexíveis, ajustando-se ao ritmo da natureza. Os povos Tukano, Aruaki e Macu, do Alto Rio Negro, utilizam calendários divididos em círculos que reúnem ritos de passagem, períodos agrícolas e de pesca, desenvolvidos pela Cooperação e Aliança no Noroeste Amazônico (Canoa).
Padre Justino Sarmento Rezende explica que a organização do tempo indígena está ligada aos ciclos da vida e da natureza, com o cotidiano marcado por eventos como gestação, nascimento e morte, celebrados com rituais. A chegada de frutas, épocas de caça e pesca também geram festas e momentos de partilha. “Geralmente as pessoas seguem o ritmo, o ciclo da vida, a gestação da mulher, o nascimento de uma criança. Quando alguém morre, algumas culturas realizam festas”, afirma o padre.
A diversidade de calendários reflete a diversidade cultural dos povos indígenas. A relação com o calendário ocidental varia de acordo com o contato com a sociedade envolvente, com algumas comunidades incorporando festas cívicas, religiosas e escolares ao seu calendário tradicional. “Quem já é evangelizado, cristianizado, faz também festas religiosas. Quem tem escola inclui o calendário escolar, as festas cívicas, e assim vai seguindo, depende de como cada povo vai vivendo a sua própria história”, explica o padre.
Com informações do Portal Amazônia.










