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04 de janeiro de 2026

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Cena de Chiquititas escancara intolerância religiosa atual

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Uma cena antiga de “Chiquititas”, do SBT, voltou a circular com força nas redes sociais e provocou reações que dizem muito mais sobre o presente do que sobre a novelainfantil exibida anos atrás.

No trecho, levado ao ar em horário nobre durante um especial de Ano Novo, personagens participam de uma cerimônia de umbanda à beira-mar, com oferendas simbólicas a Iemanjá.

Tudo aparece de forma serena, respeitosa e integrada à narrativa, sem tom didático, sem discurso explicativo, sem alarde.

Na época, a cena passou quase despercebida. Crianças assistiram, pais acompanharam e a história seguiu. Não houve mobilização, nem caça a culpados, nem acusações nas redes. A sequência apenas existiu como parte do universo apresentado pela novela, que sempre misturou fantasia, música e referências culturais brasileiras.

Quando a infância assistia sem medo ou filtro ideológico

O estranhamento atual chama atenção justamente porque contrasta com a naturalidade do passado. Muitos dizem não se lembrar da cena. Outros se perguntam se houve reclamações. Há ainda quem tente transformar o trecho em polêmica retroativa. No entanto, o silêncio daquela época revela algo essencial: não havia guerra cultural em curso, nem necessidade de transformar toda expressão religiosa em embate moral.

Na infância, o olhar era mais simples. As crianças viam o mar, as flores, o ritual e seguiam a história. Não havia rótulos, nem discursos de ódio prontos, nem indignação performática. A umbanda surgia como parte do Brasil real, plural e diverso, assim como tantas outras manifestações culturais que sempre coexistiram na televisão aberta.

Além disso, a própria proposta da novela infantil reforçava valores como convivência, empatia e respeito às diferenças. Nada ali sugeria imposição religiosa. Ao contrário, a cena funcionava como representação simbólica, inserida em um contexto de celebração e renovação.

O choque atual revela mais sobre o presente

Hoje, porém, a reação é outra. O que antes parecia comum agora causa espanto. A mesma cena passa a ser analisada sob lentes ideológicas, muitas vezes carregadas de preconceito. O ritual, que antes integrava o imaginário coletivo, vira alvo de questionamentos e julgamentos apressados.

Esse movimento acompanha o crescimento da intolerância religiosa no país, sobretudo contra religiões de matriz africana. O debate deixou de girar em torno da liberdade de crença e passou a orbitar disputas identitárias inflamadas, nas quais o diferente incomoda mais do que ensina.

O incômodo, portanto, não está na cena, nem na novela, nem na infância que a assistiu sem medo. Está no presente, que parece menos disposto a conviver com o que foge do padrão dominante. A viralização do trecho não revela um erro do passado, mas um sintoma do agora: um tempo em que o plural assusta, a diversidade provoca reação e a memória coletiva sofre releituras enviesadas.

A pergunta que ecoa, inevitavelmente, permanece simples e desconfortável: avançamos como sociedade ou apenas trocamos a ingenuidade pelo preconceito disfarçado de opinião?

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