Foto: André Antunes/Rede Fauna
Um estudo do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) investigou um aspecto fundamental da vida na região amazônica: o consumo de carne de animais silvestres. A pesquisa, que surpreende pela sua abordagem, destaca a importância dessa prática para a dieta e tradições de povos indígenas, comunidades tradicionais e pequenos agricultores em nove países da Amazônia.
Os resultados, publicados na revista científica Nature, revelam que a preservação da floresta é crucial para garantir o acesso à carne de caça, adaptada aos modos de vida dessas populações. O trabalho contou com a valiosa participação de pesquisadores indígenas de dez povos amazônicos: Surui, Paumari, Katukina, Baniwa, Waurá, Apurinã, Tikuna, Kaxinawá, Kuikuro e Kaixana, além de extrativistas.
A pesquisa, a maior e mais abrangente sobre o tema, identificou uma diversidade surpreendente de animais consumidos, totalizando 490 espécies. Os grupos mais caçados são a queixada, a anta e a paca, sendo esta última a mais frequente na Amazônia.

Os dados coletados ao longo de quase 60 anos (entre 1965 e 2024) em 625 localidades indicam que a carne de tetrápodes selvagens (mamíferos, aves, répteis e anfíbios) produzida na Amazônia é suficiente para suprir quase metade das necessidades diárias de proteína alimentar e ferro dos 11 milhões de habitantes das áreas rurais. Além disso, representa uma fonte significativa de vitaminas do complexo B e zinco, nutrientes essenciais para a saúde humana.
A análise revela uma “riqueza invisível” que sustenta a segurança nutricional dos povos da Amazônia, um bioma que abrange 8 milhões de quilômetros quadrados. Estima-se que mais de meio milhão de toneladas de biomassa animal são extraídas anualmente da região, resultando em 0,37 milhão de toneladas de carne silvestre comestível. Em termos econômicos, essa produção teria um valor aproximado de US$ 2,2 bilhões ao ano, considerando os preços atuais da carne bovina.
Diante desses resultados, surge a questão: por que não desenvolver sistemas agropecuários locais para a criação e abate dessas fontes de proteína animal? No início do século XIX, antes da disseminação da pecuária, a carne de animais silvestres e o pescado eram as principais fontes de alimento para as populações locais.
Atualmente, o consumo de animais como peixe-boi, jacaré e quelônios ainda persiste em algumas áreas rurais. A criação desses animais em fazendas, além de contribuir para a preservação ambiental, poderia atender a uma demanda crescente do mercado. O Tocantins já obtém sucesso na criação de pirarucu em açudes, e o Mato Grosso, de jacarés, valorizando suas carnes e couros. O Amazonas, com políticas públicas adequadas, tem potencial para desenvolver esse setor e até mesmo gerar excedentes para exportação, como já faz a China com o tambaqui.
Para que isso se torne realidade, é fundamental a atuação coordenada do Inpa, da Embrapa, da CBA, das universidades e dos governos estaduais, com investimentos em pesquisa, assistência técnica e crédito especializado.
Com informações do Portal Amazônia.








