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14 de março de 2026

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Arábia Saudita se mostra imune às regras da F1 com pista muxibenta e código de vestuário

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Enfim, chegou a semana do GP da Arábia Saudita. Desde que, um ano atrás, o Mundial confirmou a chegada do novo evento no calendário de 2021, a grita estava presente. E assim deveria ser. Os motivos estão num governo ditatorial multibilionário e com perigosa tração de poder ao lado da maior economia do planeta. Governo responsável não apenas por tradicional desrespeito aos direitos humanos mais básicos, mas de exportação de abusos de direitos humanos. Tudo isso segue necessário e segue verdadeiro, mas é importante ir além e falar de como, envolta em críticas internacionais, a organização do GP saudita não fez o mínimo para se poupar e de uma F1 que vendou os próprios olhos.

O que é mais impressionante nesta corrida é o quão pouco fez para remediar a péssima reputação. O Bahrein, por exemplo, tentou respondia sua parcela de críticas com um dos melhores autódromos do mundo. O Azerbaijão chegou também sobre acusações de sportwashing? Respondeu com uma pista de rua totalmente diferente ao que existia e que era fantástica, apesar do primeiro ano ter rendido uma corrida furreca já se mostrava um tanto atraente.

A Arábia Saudita sequer se esforçou. Depois de despejar dinheiro para finalizar um acordo de dez anos com a F1, teve 12 meses para encontrar soluções. É, sim, um tempo curto – a construção aconteceu em oito meses -, mas o acordo foi costurado para isso mesmo. Um mês antes da prova, o vídeo divulgado pela própria organização mostrava uma enorme parte do traçado incompleto: a reta dos boxes e a destacada curva dez, por exemplo. Uma parte enorme ainda sem asfalto e um verdadeiro canteiro de obras.

“Eles estão tendo problemas, isso é certo. Mas estão trabalhando 24 horas por dia, sete dias na semana, como já têm feito durante algum tempo. Vi apenas algumas fotos até agora, e o progresso é gigantesco. Mas ainda existe muita coisa a se fazer. Será no fio da navalha, mas eles vão conseguir. Teremos tudo que precisamos para fazer a corrida de forma segura. Estou confiante disso”, disse Steve Nielsen, diretor-esportivo da F1 já em meados de novembro.

O processo para aprontar o solado onde carros de Fórmula 1 vão passar, com esse peso e velocidade, é diferente de carros normais. É necessário passar uma camada do asfalto especial envolvido em pistas como essa, deixar respirar por algumas semanas e, só então, colocar a camada final, antes de novo período de respiração. É assim que o asfalto fica como o das pistas da F1 e, mesmo assim, pistas novas que passam por esse processo ainda mostram enorme falta de aderência pelo pouco ou nenhuma borracha na pista. A Turquia recapeou a pista do Istambul Park perto do GP turco no ano passado e, quando os carros chegaram por lá, mal havia como acelerar. Tirem pelas imagens divulgadas da pista sem asfalto há um mês da corrida e juntem com essa necessidade de respeitar processos para asfaltar uma pista. O que esperar do Circuito de Jedá neste primeiro ano?

Circuito de Jedá demorou bastante a ganhar forma (Foto: Reprodução/F1)
© Fornecido por Grande Prêmio Circuito de Jedá demorou bastante a ganhar forma (Foto: Reprodução/F1)

Num traçado enorme, com mais de 6 km de extensão, a expectativa é de contar com enormes bolsões onde acelerar o carro, apenas isso, será tarefa a ser executada com luvas de pelica para não perder o controle de maneira completa. Todo mundo envolvido já sabe disso.

“A pista que vamos descobrir será um grande desafio, pelo que vemos. Estou preocupado com a velocidade. Não tem muita área de escape, eles têm a barreira SAFER que é usada em Indianápolis, mas são velocidades altas e poucas áreas de escape. É de grande risco, o que sempre chama atenção como um piloto”, afirmou o campeão mundial de 1996 Damon Hill, comentarista na TV inglesa.

Como afirmou também Pierre Gasly, o traçado novo oferece quase nenhuma borracha e uma pista suada, por conta do óleo que vaza do chão – neste caso, por ser uma pista do deserto, há ainda a muita poeira que tende a piorar as coisas. Quanto mais jovem o asfalto, mais ele sua; sem tempo de respirar, sua bastante. Tudo isso numa pista “extremamente rápida e com várias curvas de alta velocidade, algumas cegas”, conforme disse o francês.

É perfeitamente possível de compreender quando se vê a declaração do chefão Stefano Domenicali, no mês passado.

“Estamos confiantes de que a organização irá trabalhar dia e noite para concluir a construção. Todos os investimentos que estão sendo feitos. Será perfeito na próxima temporada, e este ano será muito, muito bom. A prioridade atualmente é na rota como um todo. Isso será definitivamente finalizado”, comentou.

O acordo da Arábia Saudita com a Fórmula 1 é fruto de duas possibilidades e, nas duas, a F1 não sai bem. Uma delas é que a Arábia Saudita entrou com um investimento tão fora da curva que imediatamente se colocou acima das regras e do bom senso. A outra é que, movida pelas perdas dos dois anos pandêmicos, a F1 suplicou para que um acordo com os sauditas fosse adiantado. Isso é, se o desejo era entrar na baila em 2022 e ganhar tempo para preparar o terreno, a F1 implorou para a grana caísse um ano antes pelas emergências de curto prazo. Se for isso, então, a F1 está nas mãos dos sauditas, que cumprem não um capricho, mas um favor. De qualquer maneira, as regras não se aplicam para eles.

Se o mantra da F1 ao longo dos anos foi não se envolver em política local, tudo que a entidade queria evitar era alguma bomba que mandasse pelos ares a narrativa da modernização da família real saudita. Os neopríncipes se atualizam, entram no mundo real e defende a sustentabilidade com o Vision 2030, projeto que prevê uma revolução sustentável no país com o mesmo ponto final que a própria F1. Pudera, eles até permitem que as mulheres tirem carteira de motorista! Foi o que se defendeu nos últimos 12 meses. Eis, então, que surge um código de vestimenta que inibia a utilização de diversas peças de roupa comuns entre as mulheres – até o uso de maquiagem mais forte – para quem fosse aparecer no Circuito de Jedá.

As restrições para roupas comumente associadas ao vestuário masculino até existem, mas as numerosas e que chama atenção são no feminino.

Imagem de trecho do novo circuito de Jedá, na Arábia Saudita (Foto: F1)
© Fornecido por Grande Prêmio Imagem de trecho do novo circuito de Jedá, na Arábia Saudita (Foto: F1)

“Entre as restrições, as mulheres não poderão usar maquiagem “excessiva” — embora o conceito de excessivo não seja definido pela organização e se torne algo subjetivo —, roupas com transparência, minissaias, roupas que terminem acima do joelho, vestidos com abertura nas costas, roupas com alças à mostra, roupas apertadas e biquínis”, disse a matéria do GRANDE PRÊMIO após o anúncio.

A resposta da opinião pública fez com que voltassem atrás, mas apenas para estrangeiros. “O Ministério dos Esportes garante que não haverá nenhum código de vestimenta no circuito ou em locais públicos em Jedá. Isso se aplica a todos, independente de gênero”, disse o ministério em comunicado. Mas com um pedido por respeito “à sensibilidade cultural da Arábia Saudita”.

Para meio entendedor, meia palavra basta. E as palavras sauditas não são exatamente para o Ocidente, mas para o mercado interno. Pouco importa que os códigos de vestimenta foram retirados da dança, o fato é que quem está ali e entende códigos e perigos sabe do que se trata. A retirada serve a meia dúzia de turistas e ao mundo que acompanha a F1 de longe, mas o domínio sobre a população local foi reafirmada novamente.

Lembra quando o presidente da FIA, essa completamente enamorada por tudo de mais verde que a Arábia Saudita pode oferecer, afirmou que esporte e política não deveriam se envolver? O quão apolítico parece isso para Jean Todt? O mais justo seria explicar ao menos onde ele enxerga a fronteira do político e o apolítico para que o público geral saiba se a declaração é mais ou menos fraudulenta.

A organização do GP da Arábia Saudita, como tudo no país absolutamente centralizado e com uma espinha que liga diretamente ao poder da família real, não se furtou em fazer isso nem mesmo enquanto ONGs internacionais se manifestam há um ano. Não é apenas a Arábia Saudita que se apresenta como um país repressivo contra mulheres e pessoas LGBTQIA+, como o Catar, há duas semanas deixou claro. E não será a única vez que trataremos do assunto. Já falamos muito sobre isso e falaremos muitas vezes mais.

O que chama a atenção é que a Arábia Saudita e sua família real se sentem tão cheios de convicção de que o mundo acaba abraçando seu dinheiro e relação com os Estados Unidos, no fim das contas, que não faz a menor questão de disfarçar as jogadas e se ater às regras o mínimo que seja.

Fonte: Grande Prêmio

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