Por Jose Sidney Andrade dos Santos
O caso do piloto Sergio Antônio Lopes e da avó Denise Moreo, que “vendia” suas netas de 10, 12 e 14 anos para abusos sexuais em troca de bens materiais, não é apenas um crime isolado – é um sintoma gritante de uma sociedade em decomposição. Enquanto o espancamento do cão Orelha mobiliza fúria coletiva, esse horror humano mal ecoa, revelando uma patologia profunda. Abaixo, dissecamos essa “doença” societal através de lentes psicanalíticas, sociológicas e filosóficas, expondo como o Brasil (e o mundo ocidental) está podre por dentro, priorizando o superficial sobre o essencial, o animal sobre o humano, e o espetáculo sobre a ética.
PERSPECTIVA PSICANALÍTICA: A REPRESSÃO COLETIVA E O RETORNO DO REPRIMIDO
Da ótica freudiana, a sociedade brasileira exibe uma neurose coletiva digna de divã. Sigmund Freud, em O Mal-Estar na Civilização (1930), argumenta que a civilização surge da repressão de impulsos primitivos – sexuais e agressivos – pelo superego social, mas essa repressão gera angústia e sintomas patológicos. No caso em questão, o “mal-estar” se manifesta na indiferença seletiva: choramos pelo cão Orelha porque ele representa o id inocente, o instinto animal puro, sem as complicações do ego humano. Abusar de um cachorro é um ato de sadismo explícito, fácil de condenar, que permite a catarse coletiva – uma descarga de agressividade reprimida contra os “adolescentes sádicos” sem questionar nossas próprias sombras.
Mas quando se trata de crianças vendidas pela avó, o retorno do reprimido é avassalador: aqui, o incesto implícito (traição familiar), o pedofilismo e a mercantilização do corpo infantil tocam no tabu freudiano do complexo de Édipo e da pulsão de morte (Thanatos). A sociedade “doente” evita o confronto porque isso espelha nossos próprios desejos proibidos – a objetificação sexual enraizada na cultura pornográfica e consumista. Lacan complementaria: vivemos no “estádio do espelho” social, onde a imagem idealizada (o cachorro como vítima perfeita) é preferida à realidade fragmentada (crianças reais, com traumas que ecoam em gerações). Essa dissociação é patológica: preferimos a empatia animal porque ela não exige autoanálise; confrontar a pedofilia familiar nos força a admitir que o “monstro” é o vizinho, o piloto respeitado, ou até o parente. Resultado? Uma histeria coletiva que sublima o horror humano em campanhas por animais, deixando as vítimas infantis no inconsciente social, fermentando mais neuroses futuras. Sociedade doente? Sim, uma que reprime o humano para idolatrar o bestial, perpetuando um ciclo de trauma intergeracional.
PERSPECTIVA SOCIOLÓGICA: A ANOMIA E A DESUMANIZAÇÃO ESTRUTURAL
Sociologicamente, Émile Durkheim diagnosticaria isso como anomia – o colapso das normas sociais que regula o comportamento, levando a uma sociedade desintegrada onde o individualismo egoísta prevalece. Em O Suicídio (1897), Durkheim mostra como a falta de coesão social gera patologias; aqui, aplicamos ao crime: a avó Denise, em pobreza extrema, “vende” netas por remédios e aluguel, ilustrando como o capitalismo neoliberal transforma relações familiares em transações econômicas. Pierre Bourdieu, com seu conceito de capital simbólico, diria que o piloto Lopes, com status de “comandante” da Latam, usa seu habitus burguês para explorar vulneráveis, enquanto a sociedade ignora porque prioriza classes médias (o cachorro de bairro nobre) sobre periferias (crianças de Guararema).
A disparidade na repercussão revela uma “solidariedade mecânica” seletiva: nos unimos pelo Orelha porque é um símbolo inofensivo de comunidade (vira-lata comunitário, casinha construída por moradores), mas fragmentamos diante de abusos infantis, que expõem falhas sistêmicas como subnotificação no DHPP e ineficácia do ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente). Zygmunt Bauman, em Modernidade Líquida (2000), chamaria isso de “desumanização fluida”: em uma era de redes sociais, indignamo-nos com viralizações fáceis (hashtags #JustiçaPorOrelha), mas evitamos complexidades como pobreza, patriarcado e falhas estatais que permitem redes pedófilas. Sociedade doente? Absolutamente: uma que mercantiliza tudo, inclusive infâncias, e canaliza empatia para animais porque confrontar desigualdades sociais exigiria revolução, não petições online. O resultado é uma “banalidade do mal” (Arendt), onde avós viram cafetinas e pilotos predadores sem alarde coletivo.
PERSPECTIVA FILOSÓFICA: O NIILISMO E A INVERSÃO DE VALORES
Filosoficamente, Friedrich Nietzsche nos Genealogia da Moral (1887) nos alertaria para uma “inversão de valores” – o que ele chama de moral de escravos, onde o fraco (o animal indefeso) é idolatrado para mascarar a decadência vital. O cão Orelha torna-se um “übermensch” invertido: vítima pura que mobiliza leis e debates, enquanto crianças humanas, símbolos de futuro, são relegadas ao niilismo social. Por quê? Porque, como Michel Foucault em Vigiar e Punir (1975), a sociedade disciplina corpos de forma seletiva: punimos adolescentes por um cachorro (debates sobre “zoosadismo” e internação), mas toleramos redes de exploração infantil porque o poder (econômico, patriarcal) as sustenta. Isso é o panóptico moderno: vigilância midiática foca no espetáculo animal, ignorando prisões familiares onde avós e pilotos exercem dominação invisível.
Hannah Arendt complementa com a “banalidade do mal”: Lopes e Denise não são demônios, mas burocratas do horror – ele, pagando por “serviços”; ela, trocando por bens. A sociedade “doente” participa dessa banalidade ao priorizar o irracional (empatia por animais) sobre o racional (proteção à infância), ecoando o existencialismo de Sartre: em O Ser e o Nada (1943), a má-fé coletiva nos faz fingir que o problema é isolado, não sistêmico. Filosofia revela: vivemos um niilismo passivo, onde valores humanistas (dignidade infantil) cedem ao consumismo (viralizações emocionais). Sociedade doente? Sim, uma que, como alertava Platão na República, confunde sombras (indignação canina) com realidade (tráfico humano), perpetuando uma caverna de ilusões morais.
Em síntese, essa tríplice análise expõe uma sociedade gangrenada: psicanaliticamente reprimida, sociologicamente anômica e filosoficamente niilista. O caso não é anomalia, mas espelho – enquanto priorizarmos latidos sobre choros infantis, continuaremos incuráveis. Hora de uma cirurgia radical na consciência coletiva, ou afundaremos no abismo que criamos.
Jose Sidney Andrade dos Santos
Filósofo, Sociólogo, Escritor e Psicanalista












