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05 de fevereiro de 2026

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Análise crítica da música “Auê” de Marcos Telles: uma visão multidisciplinar

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Por Pr. José Sidney Andrade dos Santos

A música “AUÊ (A Fé Ganhou)”, lançada por Marcos Telles em colaboração com Ana Heloysa, Filipe da Guia e o Coletivo Candiero, faz parte do projeto musical “O Grande Banquete”, inspirado na parábola bíblica de Lucas 14, que fala sobre a inclusão dos marginalizados no banquete celestial. A canção, com sua letra ritmada e elementos culturais brasileiros, gerou controvérsias intensas no meio evangélico, sendo acusada por alguns de sincretismo religioso e por outros defendida como uma celebração inclusiva da fé. Nesta análise crítica, examino a obra sob perspectivas teológica, das religiões de matriz africana, filosófica, sociológica, neopentecostal e reformada. Meu objetivo é desvelar as camadas simbólicas e as implicações espirituais, sociais e intelectuais da música, sem temer confrontar ambiguidades que podem comprometer a pureza doutrinária cristã.

Análise Teológica Geral

Teologicamente, a música busca retratar a graça redentora de Deus, que convida os “caídos” – representados por figuras como “Zé” e “Maria” – a participarem do banquete divino, ecoando Lucas 14:21-23, onde o senhor manda convidar os pobres, aleijados, cegos e mancos. Frases como “Com a folha, eu aprendi como se deve cair / E agora, com as mãos estendidas / Você quer me levantar, diz que aqui é meu lugar” sugerem uma narrativa de queda e redenção, alinhada ao conceito bíblico de graça. No entanto, a ambiguidade simbólica introduz riscos: o “auê” – termo popular para bagunça ou festa animada – e expressões como “dança na ciranda da fé” e “solta tua criança até explodir em glória” podem diluir a sobriedade do culto cristão, transformando-o em uma celebração hedonista que prioriza a emoção sobre a reverência. Essa abordagem, embora intencione inclusão, pode inadvertidamente promover um evangelho superficial, onde a fé é reduzida a uma “ciranda” cultural em vez de uma transformação espiritual profunda, como advertido em Romanos 12:2 contra a conformidade com o mundo.

Visão das Religiões de Matriz Africana

Sob a ótica das religiões de matriz africana, como o Candomblé e a Umbanda, a letra de “AUÊ” apresenta paralelos notáveis que sugerem uma apropriação ou ressonância com elementos rituais afro-brasileiros. Termos como “Zé” remetem a Zé Pilintra, uma entidade malandra da Umbanda, conhecida por sua astúcia e proteção aos marginalizados; “Maria” evoca Maria Padilha, a Pombagira, figura feminina associada à sedução, dança e cores vibrantes (como o vermelho, mencionado indiretamente na “cor que ela mostrou”). A “folha” é um elemento central nos rituais de banho e oferendas no Candomblé, simbolizando cura e conexão com os orixás. Expressões como “solta tua criança” aludem aos Erês, espíritos infantis na Umbanda, que representam inocência e alegria explosiva em transe; e os sons onomatopéicos “emolêbamemoê-ê-ê” ecoam saudações e cantos de terreiro, como invocações a orixás. O “sambou” de Maria e a “ciranda” invocam danças rituais que facilitam a incorporação espiritual nessas tradições. Essa interseção não é neutra: em uma perspectiva afro-religiosa, a música poderia ser vista como uma ponte cultural, celebrando a espiritualidade sincrética brasileira. Contudo, criticamente, isso revela uma infiltração de elementos pagãos em um contexto cristão, potencialmente normalizando o sincretismo que mistura o sagrado cristão com práticas ancestrais africanas, o que contraria Êxodo 20:3-5 contra ídolos e falsos deuses.

Ponto de Vista Filosófico

Filosoficamente, “AUÊ” pode ser analisada à luz do pós-modernismo, que valoriza a desconstrução de narrativas absolutas e a celebração da diversidade cultural. Inspirado em pensadores como Derrida, a ambiguidade da letra – onde símbolos cristãos se entrelaçam com culturais – promove uma “derrisão” de fronteiras religiosas, questionando hierarquias espirituais tradicionais. No entanto, isso levanta questões éticas: se a fé é uma “ciranda” inclusiva, onde fica o conceito hegeliano de dialética, que exige síntese entre tese (pureza doutrinária) e antítese (influências externas)? A música parece priorizar o relativismo nietzschiano, onde a “vontade de poder” cultural suplanta a verdade absoluta, resultando em uma espiritualidade vazia, mais performática que transformadora. Psicanaliticamente, como freudiano, vejo na “criança solta” uma liberação do id primal, mas sem o superego da doutrina cristã, o que pode levar a uma regressão coletiva em vez de sublimação espiritual.

Ponto de Vista Sociológico

Sociologicamente, a canção reflete a dinâmica de classes e identidades no Brasil, um país marcado pelo sincretismo religioso decorrente da escravidão africana e do catolicismo colonial. Durkheim veria o “auê” como um ritual coletivo que reforça a solidariedade social, convidando os marginalizados (“Zé” e “Maria” como arquétipos do povo comum) a participarem da “efervescência coletiva” da fé. Isso é positivo para a inclusão social, combatendo o elitismo evangélico que exclui expressões culturais populares. No entanto, criticamente, Weber alertaria para o risco de “desencantamento” espiritual: ao incorporar elementos afro-brasileiros, a música pode perpetuar desigualdades, romantizando a marginalidade sem abordar estruturas opressivas. Além disso, em uma sociedade polarizada, ela agrava divisões entre conservadores e progressistas no evangelicalismo brasileiro, fomentando debates que distraem da missão social da igreja, como em Mateus 25:35-40.

Ponto de Vista Neopentecostal

Do perspectiva neopentecostal, que enfatiza a prosperidade, o combate espiritual e a manifestação do Espírito Santo, “AUÊ” é problemática. Movimentos como a Igreja Universal do Reino de Deus veem nas referências afro-religiosas uma “porta aberta” para influências demoníacas, associando Umbanda e Candomblé a forças espirituais adversas que precisam ser “quebradas” em sessões de libertação. A ênfase em dança e explosão emocional pode ser confundida com manifestações carismáticas, mas a ambiguidade leva a acusações de “macumba gospel”, comprometendo a pureza do louvor. Neopentecostais argumentam que o verdadeiro “auê” espiritual deve ser cristocêntrico, não cultural, alinhado a Efésios 6:12 contra principados e potestades. Essa visão, embora substanciada por experiências de ex-praticantes de religiões afro, pode ser excessivamente dualista, ignorando o valor redentor da cultura.

Ponto de Vista da Teologia Reformada

Na teologia reformada, ancorada nos princípios de sola scriptura, sola fide e sola gratia, “AUÊ” falha em manter a soberania de Deus e a depravação total do homem. Calvino enfatizaria que o culto deve ser regulado pela Escritura, não por inovações culturais que introduzem elementos idólatras (como alusões a entidades afro). A inclusão é bíblica, mas não à custa da santidade: a “fé ganhou” implica vitória, mas sem arrependimento explícito, reduz-se a um universalismo barato, contrário a Romanos 3:23. Reformados criticam o sincretismo como uma violação do primeiro mandamento, vendo na música uma concessão ao mundo que dilui a eleição divina. Essa perspectiva, rigorosa, sublinha a necessidade de discernimento, como em 1 João 4:1, testando os espíritos.

Conclusão

“AUÊ” de Marcos Telles é uma obra ambiciosa que busca unir fé e cultura, mas sua ambiguidade simbólica a torna vulnerável a interpretações sincréticas, especialmente com ressonâncias afro-religiosas que podem comprometer a integridade cristã. Teologicamente inclusiva, mas filosoficamente relativista; sociologicamente relevante, mas neopentecostalmente arriscada; e reformadamente questionável. Como pastor e pensador, alerto: louvores devem exaltar Cristo sem ruídos culturais que ofusquem Sua glória. Que essa controvérsia impulsione um retorno à Palavra pura, promovendo inclusão verdadeira sem compromissos espirituais

*Pr. José Sidney Andrade dos Santos*
Filosofo, Sociólogo, Escritor e Psicanalista

 

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