A negativa de partidos da esquerda brasileira em assinar a CPMI do Banco Master não é um ato neutro, tampouco irrelevante. Em um país marcado por sucessivos escândalos financeiros, crises de credibilidade institucional e desconfiança social em relação às elites políticas e econômicas, a recusa em investigar revela muito mais do que uma simples divergência procedimental: expõe contradições profundas entre discurso e prática.
Historicamente, a esquerda construiu sua identidade política sobre pilares como a defesa do interesse público, o combate à corrupção, a regulação do sistema financeiro e a proteção do Estado contra abusos do capital privado. Foi com esse discurso que conquistou apoio popular, mobilizou movimentos sociais e se apresentou como alternativa moral às práticas tradicionais da política brasileira. Diante disso, a pergunta que se impõe é inevitável: por que, agora, evitar uma investigação parlamentar?
O MEDO DA INVESTIGAÇÃO SELETIVA
A primeira revelação possível é o temor de que a CPMI extrapole seus limites formais e alcance figuras, alianças ou estruturas que hoje orbitam o poder. CPIs e CPMIs, embora instrumentos legítimos do Legislativo, são também arenas políticas imprevisíveis. Uma investigação financeira pode revelar conexões incômodas entre bancos, agentes políticos, órgãos de controle e decisões de governo — inclusive envolvendo setores que hoje sustentam a base governista.
Ao barrar a CPMI, parte da esquerda parece agir não como força fiscalizadora do Estado, mas como gestora da estabilidade política, priorizando a governabilidade em detrimento da transparência.
A LÓGICA DO “COMBATE À CORRUPÇÃO CONVENIENTE”
Outro ponto revelado é a adoção de um combate à corrupção seletivo, que varia conforme o alvo da investigação. Quando escândalos atingem adversários políticos, a defesa da apuração é imediata e enfática. Quando, porém, a investigação ameaça aliados, financiadores indiretos, ou estruturas sensíveis do sistema, o discurso muda: surgem alertas sobre “instrumentalização política”, “perseguição” ou “desnecessidade”.
Essa postura fragiliza o discurso histórico da esquerda e reforça a percepção social de que o problema não é a corrupção em si, mas quem está sendo investigado.
ALINHAMENTO COM O SISTEMA QUE ANTES SE COMBATIA
A recusa à CPMI do Banco Master também sinaliza um processo de acomodação ao sistema financeiro que outrora era alvo de duras críticas. Ao chegar ao poder, setores da esquerda passaram a conviver — e, em alguns casos, a depender — de bancos, grandes grupos econômicos e operadores do mercado. O resultado é um pragmatismo político que substitui a crítica estrutural por uma convivência silenciosa.
Esse movimento não passa despercebido pela sociedade. Ele alimenta o sentimento de que as diferenças ideológicas se diluem quando o poder é alcançado, e que o sistema político tende a se proteger a si mesmo, independentemente da coloração partidária.
IMPACTOS INSTITUCIONAIS E SOCIAIS
A não assinatura da CPMI enfraquece o papel fiscalizador do Congresso Nacional e contribui para o descrédito das instituições democráticas. Para o cidadão comum, a mensagem transmitida é simples e devastadora: há temas que não podem ser investigados; há atores que não devem ser questionados; há zonas de silêncio protegidas pelo poder.
Esse cenário fortalece discursos antipolítica, estimula a radicalização e mina a confiança no próprio regime democrático — exatamente o oposto do que a esquerda historicamente afirma defender.
A recusa da esquerda brasileira em assinar a CPMI do Banco Master revela medo político, contradição ideológica e alinhamento pragmático com estruturas que antes eram combatidas. Revela, sobretudo, que o discurso de transparência e justiça social perde força quando confrontado com os custos reais da investigação.
Em uma democracia madura, não se escolhe o que investigar com base em conveniência política, mas com base no interesse público. Fugir desse princípio é abrir mão da autoridade moral — e pagar um preço alto perante a sociedade.
CONCLUSÃO – CHAMADO À SOCIEDADE
Diante desse cenário, cabe à população brasileira repudiar, de forma firme e consciente, todos aqueles que se opõem à transparência, ao zelo institucional e ao funcionamento pleno dos órgãos de fiscalização e controle. A democracia não sobrevive onde há complacência com o silêncio, nem prospera onde o medo da verdade se impõe. Que a sociedade exerça sua memória política e seu juízo moral, conduzindo ao ostracismo público aqueles que, por conveniência, covardia ou interesse escuso, escolhem proteger sombras em vez de iluminar os fatos — pois esse é o destino histórico reservado aos corruptos e aos que se acumpliciam com eles.












