Por José Sidney Andrade dos Santos
A notícia recente de que o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes defendeu publicamente a “soma de esforços” para viabilizar a criação de um novo município em Mato Grosso batizado informalmente de “Gilmarlândia” — em homenagem a si próprio — não pode ser tratada como mera curiosidade folclórica ou excentricidade regional. Trata-se de um episódio que expõe, de forma cristalina, traços profundos de personalidade que comprometem a imparcialidade, a modéstia e a decência republicana esperadas de quem ocupa o ápice do Poder Judiciário.
O fato ocorreu em fevereiro de 2026: durante o lançamento do projeto Nova Aliança do Norte (ou “Gilmarlândia”), liderado pelo poderoso produtor rural Eraí Maggi (conhecido como “rei da soja”), Gilmar Mendes compareceu, participou e manifestou apoio explícito à iniciativa. Ele destacou a importância de estruturar um “núcleo urbano” para famílias e trabalhadores da região entre Diamantino e São José do Rio Claro, e defendeu a união de forças institucionais, privadas e comunitárias para tornar o sonho realidade. O município poderia se tornar o 143º de Mato Grosso, e o nome “Gilmarlândia” já circula abertamente como homenagem ao ministro, natural de Diamantino (MT).
Mas será que isso é apenas uma “homenagem carinhosa” de conterrâneos, como alguns defensores tentam minimizar? Ou revela algo mais grave?
Do ponto de vista psicanalítico, o episódio evoca traços clássicos do narcisismo patológico (ou narcisismo maligno, na terminologia de Kernberg), caracterizado por:
• Grandiosidade exacerbada: a necessidade de ser eternizado em nome próprio em uma entidade pública soberana (um município inteiro) vai além da vaidade comum; é uma forma de onipotência simbólica, onde o ego se coloca como centro do território, da história e da identidade coletiva.
• Falta de empatia e senso de vergonha: aceitar ou incentivar que um município leve seu nome, em pleno exercício da função de ministro vitalício do STF, demonstra ausência de pudor republicano. Em uma democracia, o poder judiciário deve ser impessoal; o juiz não é rei, nem patrono de vilas.
• Exploração de relações objetais: o apoio público à iniciativa sugere uso instrumental do cargo para reforçar laços com elites econômicas (agronegócio) e políticas locais, perpetuando uma rede de favores e influência que transcende o estritamente jurídico.
Não se trata de narcisismo “puro” no sentido benigno (o narcisismo saudável que todos temos em grau variável). Aqui estamos diante de uma forma maligna ou patológica, onde o narcisismo se alia a traços de megalomania — a ilusão de grandeza que transforma o sujeito em figura quase mitológica, merecedora de topônimos eternos. Em termos kleinianos, poderíamos falar de uma fixação na posição esquizoparanóide: o mundo é dividido entre o “bom” (eu, meu nome, meus aliados) e o “mau” (críticos, opositores, instituições que resistem). Qualquer questionamento à iniciativa é vivido como ataque persecutório ao self grandioso.
Comparado a casos históricos, o episódio lembra figuras como:
• Ditadores que batizavam cidades com seus nomes (Stalin → Stalingrado, Trujillo → Ciudad Trujillo).
• Líderes populistas que cultivam cultos à personalidade (Kim Il-sung na Coreia do Norte, com dezenas de monumentos e topônimos).
• No Brasil, o fenômeno é raro em altos escalões do Judiciário — mas não inédito em contextos regionais ou políticos menores.
A defesa ativa de Gilmar Mendes — não uma aceitação passiva de homenagem, mas um endosso público com apelo à mobilização coletiva — agrava o quadro. Revela não só narcisismo, mas uma confusão de papéis institucionais: o ministro do STF, guardião da Constituição, usa sua autoridade simbólica para endossar um projeto que o coloca no centro do mapa político-geográfico. Isso viola o princípio da impessoalidade da função pública e alimenta a percepção de que o STF, sob certas lideranças, opera mais como arena de poder pessoal do que como instituição neutra.
Críticos já apontam o absurdo: em um país com mais de 5.500 municípios, muitos em crise financeira e sem estrutura, criar um novo para homenagear um ministro vivo e em pleno exercício é um escárnio. Paga-se imposto em dia para financiar escolas, hospitais e saneamento — não para eternizar egos.
Em termos sociológicos, o episódio reflete a captura oligárquica do Estado brasileiro: elites agrárias (Eraí Maggi) e figuras do Judiciário de alto escalão trocam favores simbólicos e materiais. Gilmar Mendes, ao aceitar e incentivar, reforça uma cultura de patrimonialismo e clientelismo que enfraquece a República.
CONCLUSÃO: sim, o comportamento revela narcisismo patológico com traços megalomaníacos, agravado por ausência de vergonha republicana e confusão de papéis. Não é mero “exagero regional”; é um sintoma de decadência institucional. Em uma democracia madura, um ministro do Supremo que aceita ou defende um município com seu nome deveria ser questionado por quebra de decoro — ou, no mínimo, pela falta de modéstia que o cargo exige.
Que isso sirva de alerta: quando o ego se sobrepõe à toga, a República encolhe.
José Sidney Andrade dos Santos
Filósofo, Sociólogo, Escritor e Psicanalista









