Informação é com a gente!

16 de fevereiro de 2026

Informação é com a gente!

16 de fevereiro de 2026

A crônica dos materiais que nos contam a vida

peixe-post-madeirao
peixe-post-madeirao

Últimas notícias

09/02/2026
Publicação legal: Pedido de Renovação da Licença de Operação
12/01/2026
Edital de convocação: ASSOCIAÇÃO BENEFICIENTE QUEIROZ ALMEIDA
02/01/2026
Pedido de renovação de licença de operação e outorga
02/01/2026
Pedido de renovação de licença de operação e outorga
12/12/2025
Publicação legal: Edital de convocação
12/12/2025
Publicação legal: Termo de adjudicação e homologação
02/12/2025
Asprocinco: Comunicado de recebimento de recurso e publicação
02/12/2025
Asprocinco: Comunicado de recebimento de recurso e publicação
08/10/2025
Aviso de licitação: Pregão eletrônico – licitação n. 90011/2025 – menor preço global
02/10/2025
Publicação legal: Termo de Homologação – Pregào 9009/2025

Por José Sidney Andrade dos Santos

O biomédico entra no laboratório como quem entra na cozinha de casa: abre gavetas, pega frascos, alinha pipetas, e tudo tem nome, tudo tem função, tudo tem história. Mas enquanto na cozinha de casa a colher de pau serve para mexer feijão e para dar palmada leve no filho arteiro, no laboratório a micropipeta de 200 µL serve para transferir 0,0002 mL de um sonho em forma de DNA — e se errar o volume, o sonho morre antes de nascer.

Pense na seringa. Na vida cotidiana, a seringa é sinônimo de medo: criança chorando na fila da vacina, idoso tremendo antes da insulina, ou — pior — o viciado no beco procurando veia. No mundo do biomédico, a seringa é instrumento de precisão, quase carícia: injeta reagente em placa de cultura, alimenta célula que vai virar vacina, ou simplesmente aspira o sobrenadante de um tubo onde a vida se multiplicou durante a noite. A mesma agulha que assusta na rua é a que salva no laboratório.

E o algodão? Em casa, serve para limpar ouvido, tirar esmalte, estancar sangramento bobo de dedo cortado na cozinha. No laboratório, o algodão hidrófilo esterilizado é altar: cobre a bancada antes de qualquer procedimento, absorve gotas que não podem cair no chão, filtra impurezas invisíveis. É o mesmo algodão, mas um carrega suor de brincadeira de criança, o outro carrega o suor frio de quem sabe que uma contaminação pode jogar fora meses de trabalho.

A pinça cirúrgica: no dia a dia, é usada para tirar caco de vidro do pé ou espinho da mão. No biomédico, ela manipula tecidos que não sangram — mas que, se maltratados, mentem nos resultados. Uma pinça mal usada pode rasgar uma membrana celular e transformar um dado estatístico em mentira estatística. A mesma ferramenta, mas em um caso é emergência doméstica, no outro é ética científica.

O álcool 70%: na casa comum, é o cheiro de asseio depois da faxina, o frasco que a mãe passa no corte do filho, o líquido que queima na ferida aberta e faz a gente xingar o santo. No laboratório, é lei: 70% porque é a concentração que mata bactéria sem desnaturar proteína demais. Menos de 70% não mata o suficiente; mais de 70% evapora rápido e deixa resíduo. É a mesma molécula, mas com regras diferentes: na rua, vale o “quanto mais forte melhor”; no laboratório, vale o “exato ou nada”.

E as luvas? Ah, as luvas… Na vida cotidiana, luva de látex é para lavar louça sem estragar a manicure ou para mexer em graxa sem sujar a mão. No biomédico, luva é pele segunda: protege o experimento do pesquisador e o pesquisador do experimento. Troca-se luva entre cada etapa para não levar contaminante de um tubo para outro. É o mesmo material, mas num caso evita unha quebrada, no outro evita falsos positivos que podem custar vidas.

No fundo, o que o biomédico faz é o que todos nós fazemos todos os dias: usar objetos banais para lidar com o que é sagrado. A diferença é que ele sabe o peso de cada gesto. Sabe que uma gota a mais ou a menos pode ser a diferença entre cura e ilusão. Sabe que o algodão, a pinça, a seringa, o álcool — esses humildes soldados da bancada — são os mesmos que usamos em casa, mas carregam, no laboratório, o destino de alguém que nem conhecemos.

Então, da próxima vez que você pegar uma seringa para dar remédio no seu filho, ou passar álcool no machucado do neto, lembre-se: você está, por um instante, no mesmo lugar do biomédico. Fazendo, com os mesmos materiais, a ponte entre o cotidiano e o milagre.

E isso, no fim das contas, é o que há de mais bonito na ciência: transformar o trivial em sagrado, sem nunca esquecer que o sagrado, um dia, foi trivial.

Jose Sidney Andrade dos Santos – Biomédico CRBM4 10788
Filósofo, sociólogo, escritor, psicanalista
Porto Velho um laboratório de emoções disfarçado de cidade pequena

Página inicial / Opinião / A crônica dos materiais que nos contam a vida