Por Jose Sidney Andrade dos Santos
Ah, que bela peça de teatro estamos assistindo no Congresso Nacional! O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), anda desfilando por aí com uma cara de estadista preocupado, falando em “cautela” para não “instrumentalizar politicamente” a CPMI do Banco Master. Prudência republicana? Por favor. Isso é puro escudo de proteção para os seus apaniguados que mergulharam fundo — literalmente R$ 400 milhões — no poço sem fundo do Banco Master, usando o dinheiro suado da previdência dos servidores do Amapá.
Vamos aos fatos, sem maquiagem: a Polícia Federal deflagrou a Operação Zona Cinzenta e foi bater na porta da Amapá Previdência (Amprev). O alvo principal? Jocildo Silva Lemos, o queridinho indicado diretamente por Alcolumbre para presidir a autarquia. Sim, aquele mesmo que foi tesoureiro de campanhas do senador e que, em evento público, agradeceu efusivamente ao “senador Davi Alcolumbre, que me convidou para ser o presidente da Amapá Previdência”. Que coincidência adorável, não é? E tem mais: o irmão do senador, Alberto Alcolumbre, sentadinho no Conselho Fiscal da mesma entidade que autorizou o aporte bilionário em letras financeiras do Master, ignorando alertas internos. Gestão exemplar, hein?
Alcolumbre, o guardião da República, agora diz que precisa “analisar com calma” o pedido de CPMI — protocolado com mais de 280 assinaturas, número que humilha a famosa CPMI dos Correios de 2005. Ele teme “instrumentalização” em ano eleitoral. Que conveniente! Enquanto isso, a pressão sobe porque o escândalo do Master, que já derrubou o banco e lesou investidores por aí, agora toca diretamente na base do poder do amapaense. Seu indicado na Amprev autorizou os R$ 400 milhões mesmo com sinais vermelhos piscando. E o senador? Silêncio ensurdecedor, seguido de “cautela”. Traduzindo: “Deixem meus amigos em paz, que eu cuido disso no meu tempo”.
Ora, se fosse prudência de verdade, o presidente do Congresso instalaria a CPMI imediatamente para jogar luz sobre tudo: as fraudes no Master, os aportes temerários da previdência estadual, as indicações políticas que cheiram a toma-lá-dá-cá. Mas não. A “prudência” só aparece quando o rastro leva até Macapá, até a Amprev, até os apaniguados que devem favores eternos ao chefe.
É sarcasmo dizer que Alcolumbre está protegendo a República? Não, é ironia cruel da realidade. Ele protege, sim: protege os seus. Protege o sistema que coloca amigos e familiares em cargos gordos, que investe aposentadorias de servidores em esquemas duvidosos e depois finge surpresa quando a PF bate na porta. Prudência republicana seria transparência, seria investigação sem medo. O que vemos é o clássico “deixa quieto, que pode respingar em mim”.
Enquanto os aposentados do Amapá ficam com o futuro em risco por causa de decisões “bem avaliadas” por apadrinhados, Alcolumbre pratica a arte da protelação fina. Parabéns pela cautela, senador. Ela é tão republicana quanto um cheque sem fundo assinado com caneta de ouro.
A República agradece… ou melhor, os apaniguados agradecem. O povo? Ah, esse que espere a próxima operação da PF para saber mais detalhes.
Jose Sidney Andrade dos Santos
Filósofo, Sociólogo, Escritor








